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disso que taí

Qual o nome disso que taí

dos confins do Norte até o Chuí?

– disso que ameaça, abala, empesta

poeta, peão, floresta, colibrí…

 

Me valham boas memórias,

mesmo de amores perdidos,

porque em verdade vos digo:

avançam trevas aí fora,

boiada destrói a flora

e fauna perde o abrigo

 

Qual o nome disso que taí

dos confins do norte até o Chuí?

– disso que ameaça, abala, empesta

poeta, peão, floresta, colibrí…

 

Quem faz promessa e não cumpre,

quem mata e quem se corrompe

desperta pra todo o sempre

desprezo do meu candombe

e a ira dos meus tambores

que nunca haverá quem compre.

sobreviventes

Pátria de verdes e azuis

onde andei, ando, andarei

– Taim, Arroio del Rey,

Atlântico, Árvore Só –

querência de avô e de avó

de pai e mãe, tios e tias;

há 24 mil dias

eu amo este cafundó.

 

Cresci mirando o horizonte

em todos pontos cardeais

e, entre iguais e desiguais,

repartindo afeto e pães

com o amor que herdamos das mães

além de gana e coragem;

voando com indomáveis

ventanias marinheiras

que desconhecem fronteiras

como as paixões também fazem.

 

Gurias que eu tanto quis

e quero e hei de querer;

hermanos desde anteayer

hasta siempre, vida fuera;

comparsas de mil quimeras

e perdas e ganhos d’alma;

butiás de uma mesma palma,

rebentos da mesma gente…

Arriba,  sobreviventes!

Esperança é o que nos salva.

Mais um futuro

Nem lã nem brim nem veludo,

é sonho o que me agasalha

e eu vou de baile a batalha

peito aberto e pés desnudos

 

se o vento sopra meu fado

pra alguma estrada pequena,

outro destino me acena

e andamos de braços dados

 

adiante, tanta gandaia,

tão generoso porvir,

capaz de até redimir

a gente da minha laia

 

se um monstro arrasa o batuque,

se a dor destroça o festejo,

saudade de abraço e beijo

talvez seja o que mais fique

 

adiante outro dia raia

abrindo mais um futuro

capaz de salvar do escuro

a gente da nossa laia.

Pra que eu viva

(com Lucas Ferrera)

 

Saudosa boca de moça

adoça minha saliva

– é por paixão que começa

cada razão pra que eu viva

 

Me apaixonei por ser livre

no real e no imaginário;

sou peixe, escapo ao aquário

sou ave, escapo à gaiola;

aprendi, não só na escola,

a vencer ventos contrários.

 

Me apaixonei por cantar

de manhã, de tarde, à noite…

e quando já não me escutem

as musas do meu outono,

seguirei cantor sem dono,

aplauso, pouso e limites.

 

Saudosas bocas de moças

adoçam minha saliva

e aromas de madressilvas

acordam novas promessas

– é por paixão que começa

cada razão pra que eu viva.

Assombrado

(com Hilton Vaccari)

 

Me alegra esta casa aberta

cheirosa de fruta e de flor,

povoada de gente honesta

e passaredo cantor.

 

Somos de um país hoje assombrado

com milhões desempregados

bom futuro sempre adiado

mau passado a não passar;

ladram, mordem, babam cães insanos

e no charco em que atolamos

oxalá nasçam gerânios

e teimemos em semear

 

Céu verte azuis,

breu serve aos boçais.

 

“Belo, forte, impávido, colosso”

é o país onde o almoço

chegue ao piá e ao velho e ao moço

à guria, à mãe, à vó,

mas vamos pra trás mais do que adiante,

somos a nação gigante

que, de passo em passo errante,

se embretou num cafundó.

 

 

Noites verde-amarelas

Noite no mar – maré baixa

noite no chão – nova marcha

noites sem peixes e pães

noite no mar – poucas ondas

noite no chão – loucas rondas

noite de calma e de cães

 

por favor, um verso de Caymmi que ilumine esse chão,

por favor, um verso de Drummond pleno de sonho e de pão

 

noite no mar – uma estrela

noite no chão – a novela

noites de telas distintas

noite no mar – rede leve

noite no chão – uma greve

noites de bocas famintas

 

por favor, um verso de Caymmi – a mais sublime canção

por favor, um verso de Drummond cheio de peixe e paixão

 

noite no mar – os arpões

noite no chão – os ladrões

noites de tantas quadrilhas

noite no mar – sem temores

noite no chão – sem pudores

noites de santas famílias

 

por favor, um verso de Caymmi pra redimir mar e chão

por favor, um verso de Drummond em vez de alguma oração

 

noite no mar – vento forte

noite no chão – tiro e morte

noites de rezas e velas

noite de mar – lua cheia

noite no chão – não clareia

são noites verde-amarelas

 

 

Pequenos anúncios

(com Talo Pereyra)

 

Troca-se um despertador por um violão

troca-se mero favor por solução

troca-se um disco voador

por algum sonho de amor

compra-se um trabalhador

sem opinião

 

vende-se seja o que for a preço de custo

vende-se, a quem perdoou, o sono dos justos

vende-se um apartamento

vende-se um monumento

troca-se um breve momento de angústia

 

compra-se meia palavra

sem discussão

compra-se meia verdade

meia questão

compra-se boa vontade

compra-se um gesto que agrade

vende-se a dor que não cabe

a prestação.

Pequenos anúncios

Paulo Gaiger, cantor, ator, diretor, professor do Centro de Artes da Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

Para quem frequentou o auge dos festivais da música nativista e dispõe de tempo para ouvir e relembrar as 12 canções classificadas para as finais registradas em vinil e, somente a partir dos anos 90, em compact disc, vai recordar do nome do compositor argentino Talo Pereyra, falecido no ano passado. Fugindo da ditadura argentina, Talo desembarcou em Porto Alegre após o golpe militar de 1976, um período também muito difícil para os brasileiros. Aqui, o violonista e compositor nascido em La Plata logo foi acolhido pelos músicos, letristas e poetas especialmente da música nativista, já nos começos da efervescência.

A Califórnia da Canção, o Musicanto, a Seara, a Coxilha, a Moenda, a Ciranda, a Tertúlia e o Reponte, entre tantos outros festivais que aconteciam por todo o estado, ouviram e aplaudiram as belas canções do Talo. Um de seus grandes parceiros e, sem dúvida, o melhor de todos, foi Robson Barenho, jornalista, letrista e poeta de Santa Vitória do Palmar. Romance campesino é uma das parcerias que interpretei na 6ª Ciranda da Canção de Taquara, em 1983. A canção ficou em 3º lugar, mas, isso eu guardo, foi a causa de problemas sérios com a censura em tempos de uma ditadura que findava a contragosto de alguns generais ávidos por mais atentados como o do Riocentro. Mas melhor planejados.

Uma das estrofes escritas por Robson diz o seguinte: “Ano inteiro a mesma cena, de currais, jardins, paióis…A tesão por Madalena, atenção pra os girassóis”. A palavra tesão levou os agentes da censura, pagos com o dinheiro público, a censurar e proibir a gravação. Chico Buarque e Menescal haviam passado por situação semelhante com o verso “eu tenho tesão é no mar”, da canção Bye Bye Brasil, em 1980.

Na época, meu irmão, Júlio Marcos, assumiu a causa e depois de idas e vindas, muitas argumentações e recursos, conseguiu liberar a canção que foi gravada no LP do festival. Em 2000, o baita intérprete Léo Almeida regravou Romance campesino em seu disco Parceiros. Se você está curioso, poderá ouvir as duas versões, a do Léo e a do festival cantada por mim, na página do Robson Barenho (http:www.robsonbarenho.com.br/?p=566). Aproveita e já escuta outras canções. Aconselho o acompanhamento de um bom vinho malbec.

Outra das composições da dupla que interpretei foi Fruto no asfalto, na 4ª Seara da Canção de Carazinho, em 1984. Coloque atenção na poesia do Robson. “A liberdade é uma fina flor urbana e campesina, os que não viram, verão. Meu canto é fruto no asfalto, mistura de indústria e mato, de cimento e plantação”, Nas Lambanças de cafundós, da 12ª Califórnia, de 1982, se canta uma festa, uma alegoria a um povo livre, solidário e feliz: “O fim de mundo que te canto tem manias, tem poesia e, portanto, insensatez. É um deus-me-livre ou só uma alegoria para que alguém diga depois: era uma vez”.

Em um festival de música de Porto Alegre, nos anos 80, interpretei o choro-canção chamado Pequenos anúncios, uma letra tocante e que sigo cantando até hoje: “Troca-se um despertador por um violão. Troca-se um mero favor por solução. Troca-se um disco voador por algum sonho de amor. Compra-se um trabalhador sem opinião. Vende-se seja o que for a preço de custo. Vende-se a quem perdoou o sono dos justos. Vende-se um apartamento. Vende-se um monumento. Troca-se um breve momento de angústia. Compra-se meia palavra, sem discussão. Compra-se meia verdade, meia questão. Compra-se boa vontade. Compra-se um gesto que agrade. Vende-se a dor que não cabe à prestação”. Talo e Robson, uma parceria que ficou para a história da boa música. Otra copa de vino?

Artigo publicado em 22/6/2019 no Diário Popular, de Pelotas

https://www.diariopopular.com.br/opiniao/pequenos-anuncios-142342

 

DE BECO EM BECO

(com Beto Gonzales)

 

Se acabar a estrada

pra meus pés descalços,

valso,

me alço até voar.

 

Eu teço horizontes

e não volto ao de ontem.

Gente

nasce é pra criar.

 

Movo estorvos, sorvo vida e vida,

vou de beco em beco e acho a saída.

 

Mando à parentalha

algo que lhe valha:

tralhas

e beijos pra ti.

 

Amo essa querência,

tramo outro esperança,

salvo

mesmo as que perdi.

MILONGA PEQUENA PARA TALO PEREYRA

Desde La Plata ao Chuí,

desde o Chuí a La Plata

os galos em serenatas,

festivais, tertúlias, trovas

celebram estrela nova

que anda avivando a Via Láctea.

E a euforia de gaitas,

violões, tambores e ventos

evoca em vasto concerto,

festeja num baile só,

de cafundó em cafundó,

luz que abraça gente adentro.

 

Desde barenho a pereyra,

desde pereyra a barenho

mesmo sonho/mismo sueño

liberdade/libertad

que foi que é que será

– por muito que o mundo mude –

a fonte da juventude,

o norte o sul o leste o oeste,

o que não há quem empreste,

o nosso pão de cada dia.

Parceiro, que fantasia

nos vestiu e ainda nos veste!!

 

Desde o Chuí a La Plata,

desde La Plata ao Chuí

gente saudosa de ti

– vizinha, irmã, brasilhana –

enfrenta matilha insana

de assombroso pedigree,

resiste a issoquetaí

e, mão na mão, se encoraja

pra mais combater a corja

que enoja e fere e se ri.