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Declamador em cafundós

robson declama 001

     O programa previa um dia inteiro de festa: desde a manhã ao meio da tarde, banquete numa estância para acompanhar a marcação do gado; à noite, apresentação da invernada mirim do CTG Rodeio dos Palmares com mais uma exibição do declamador no clube da elite de Santa Vitória do Palmar. Tudo de bom para um domingo do fim da minha infância e do início da minha adolescência no extremo sul do Brasil. Mas acordei sentindo que doía um dente. Como era só uma dorzinha, não me queixei, não tomei nem pedi remédio e me juntei à gurizada na caminhonete que nos levaria da cidade ao campo. Já no caminho, porém, a dorzinha inicial se tornou dor intensa e, na chegada à estância, eu tinha certeza de que o dente acabaria com minha festa se eu não desse jeito de me salvar. Continue lendo Declamador em cafundós

Tango feliz

CAPA ROMANCES DE CAFUNDOS 001

(de Romances da Cafundós / 1992)

Meu olhar não tem mais
a amargura dos tangos
e, verás, nem meu tango é triste mais.
Se é por jóias que esperas,
ganharás primaveras,
pérolas e diamantes,
rubís e corais

e terás noutras pedras
portuárias, de cais,
um bailado de pássaros e sóis,
fogos contrabandeados
de olhos de namorados,
vinhos, brilhos de luas,
estrelas, faróis.

O olhar de marujo
que ao porto se exibe
foi da pampa ao mar do Caribe
e voltou porque quis.
Veio primaveril e lhe basta,
veio com pedrarias de festa,
veio por teu amor e, se gostas,
te dá um tango feliz.

Sonhadores

capa 23 musicanto

(com Leonardo Ribeiro)
Intérprete: Leonardo Ribeiro no CD 23º Musicanto / 2009

Casas como nós – moradas claras;
ao redor de nós, festas e risos…
Venha vida, mesmo imaginária,
rumo a céu nenhum nem paraíso;
mesmo se acabarmos feito os índios
guarani, aymará…

Água, selva, campo e cordilheira
beiram as aldeias, as cidades
onde os povos de osso e sonho e carne
somos nós.

Vibra, vida, teus carnavais!
Venta, planta, brota mais!

Nada fere e dói além de um dia;
lar aberto, a terra é nosso reino…
Venha vida, mesmo em fantasia
que faça do último, o primeiro,
como nenhum pobre, branco ou negro,
nunca foi, mas será.

Entre o que há de vir e bruta história
vivem, do Caribe à Patagônia,
povos de uma estirpe que ainda sonha.
Somos nós.

Vibra, vida, teus carnavais!
Venta, planta, brota mais!

Trem das sete

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(com Talo Pereyra)
Intérprete: Glória Oliveira no LP 7ª Ciranda Musical / 1984

Eu cheguei no trem das sete,
que mistura óleo e poesia.
Trouxe um canto que reflete
meu pago, minha utopia,
ou fere, qual canivete.

Lá nos confins de onde sou
não há quem mande sozinho,
não há quem decida nada
contrário ao bem dos vizinhos.
Ninguém se queixa pra o padre
nem aos outros desagrada.
E há um pelotão da Brigada
que vive na ociosidade.

Vi caminhões pela estrada,
rumo a Rondônia ou Goiás.
Em vez de trigo ou boiada
levam Tonicos, Inás
que, tendo terra nenhuma,
mas planos, braços e pás,
seguem vento que perfuma
lutas que a vida refaz.

Decerto, chegam um dia
lá onde a angústia termina,
lá onde a terra sacia
a fome que aqui germina.

Decerto, chegam um dia,
nos campos, praças, esquinas,
lá onde se refugia
o meu amor por Cristina

Vício de sonhar

(com Talo Pereyra)

Eu imagino que viver feliz
seja o revés, seja o revés
de não semear as plantas dos meus pés
em todos palcos de cada país.

A flor e sol, a leite e mel
eu alimento o vício de sonhar
que assim na terra como no céu
nos sobra, enfim, um baile popular.

Eu canto aos ventos pra que minha voz,
cidade afora, campos afora,
sossegue a dor e o drama de quem chora
e alegre os dias dos que marcham sós.

A qualquer hora, se me deixa a paz
e falta luz e falta luz,
me acodem músicas que não compus,
me afaga um par – e eu canto e danço mais.

Vento sul

capa 8o Grito do Nativismo

(com Talo Pereyra)
Intérprete: Neto Fagundes no LP 8º Grito do Nativismo Gaúcho / 1994 e LP Retrospectiva do Grito do Nativismo / 1996

Vento sul anda em folia!
Parece o meu coração
festeiro de noite e dia
desde que o amor, com Luzia,
desembarcou na estação.

Veio do sol ou então
das veias da maresia
onde ela me beijaria
e um beija-flor – por que não?-
de ciúme improvisaria
canções ao vento folião.

Vento sul anda em folia!
Me lembra Anita,
a lendária das terras que não possuía
mas, com os seus, dividia
plantando a reforma agrária
por chão de pães e poesia
onde ela produziria também o amor,
grão por grão,
e quando em cio – por que não?-
vento vadio em folia.

Bailar com esse vento vão
mulheres de poesia e pão,
mulheres de roçados, vilarejos, capitais.
Mas esse par é como um peão
latino americano ou não;
é como peão sem pago
que se vai, se vai, se vai.

Ventania

O dia levantou cedo
– eu acho que não dormiu.
Foi seduzido por Pedro
e o delirante assobio
de descobrir horizontes
quando a noite cobre o rio.

O Pedro é como um vigia,
com olhos postos ao longe
pra ver se o amanhã vem hoje
com luz e cor de alegria.
Então, quando um dia foge,
por outro, Pedro assobia.

Nas noites de lua ausente
em que a vida se desfia
e o rio não segue a corrente
nem volta aonde principia,
assobio de ventania
anima cada casebre,
como a explosão de uma febre,
antecipando outro dia

Valsa dos plantadores

Plantarão
Plantarão
com gestos decisivos, plantarão
onde for mais preciso
que brotem pés de milho, trigo
e pés de bailarinos

e mesmo perseguidos plantarão
seus sonhos produtivos
de sol a sol tecidos
em múltiplos caminhos.

Plantarão
Plantarão
sob mormaço e chuva, plantarão
nas sombras da alma humana,
não o pesar dos dramas, não,
mas promissores grãos.

Depois irão colher, dançar na roça
e outra vez plantar, que a safra passa,
e outra vez colher…
a esperança
é uma contínua valsa

Só mesmo você

capa 28 Coxilha Nativista

(com Talo Pereyra)
3º lugar na 28ª Coxilha Nativista / 2008
Intérprete: Daniel Torres no CD 28ª Coxilha Nativista

Só mesmo você pra me convencer
que a luta não pode parar;
só mesmo você parece manter
as nossas bandeiras no ar.

só mesmo você pra me refazer
das marchas por tantas estradas.
apenas você é capaz de dizer
que as ruas estão perfumadas.

Eu sei dos caminhos que fazes,
dos ninhos, das frases
pra me receber;
eu sei que, contigo do lado,
cadeia e cadeado
não vão me deter.

Só mesmo você pra me oferecer
as flores que vivo a pisar;
só mesmo você pra reconhecer
o gesto que eu quero mostrar;

só mesmo você pra me recolher
somente pra me reparar;
só mesmo você pode me prender
com jeito de me libertar.

Tenho dito

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(com Talo Pereyra)
Intérpretes: Rui Biriva e Daniel Torres no LP 5ª Seara da Canção / 1985

Houve de tudo no comício,
até um namoro
que deu um filho pra o colo de Rosalina.
Houve de tudo no comício,
até um coro
que, se não gosta do ouve,
desafina.

1, 2, 3, 4, 5 mil…
O resto deste canto o delegado proibiu.

Ana Maria falou sobre a vida alheia,
o candidato jurou baixar a inflação,
o patrão nosso chorou de barriga cheia
o demagogo produziu nova ilusão;

teve bandeiras e pastéis…
E tenho dito!
E tenho um mote pra discutir.
Em meio à festa,
em meio ao xote,
há um povo cheio de promessas por aqui.