Romance do último ato

Não foi caso de abrir vala
nos campos da Carolina;
a morta fora enterrada
(e era pátria ainda menina),
vítima de espada e bala,
de inanição e de intrigas;

fora morta e sepultada
por múltiplas mãos ativas
– umas de quem as criara
e não mais a queria viva,
algumas mãos desastradas
e outras de tropa inimiga;

em data ainda imprecisa
entre setembros e marços,
entre a pampa e suas divisas
aos lados, acima e abaixo;
entre linhas e entre dias
de mapa e de calendário;

foi de papel e palavras
feita a última ferida,
não a mais funda e mais grave,
porém a definitiva,
a que dispensa outra frase
e evita outra despedida;

foi de papel e palavras
a derradeira ferida,
não a mais feia e mais larga
e nem a mais dolorida,
porém a mais fantasiada,
como se inda houvesse vítima,
como se a vítima fosse
algo mais do que fictícia.

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