Milonga da vida inteira

Aqui me ponho a cantar
com a alma escancarada
como as fronteiras sem guarda,
os campos sem aramar
e a folia popular
que rebenta em batucadas;

mais urbano do que agrário
resguardei para este dia
o olhar de fantasia
que viu quando um operário
voou com pés de calcário
e asas de alvenaria;

mais nômade do que urbano
trago emoções despertadas
no esplendor das alvoradas,
nos desafios cotidianos
que a vida e eu, mano a mano,
vencemos rasgando estradas;

se as surpresas já são raras,
muito ainda me fascina:
cada paixão repentina,
sabor de mel, noite clara;
o abraço em que a mãe ampara
seus guris e suas meninas;
luzes, praias nordestinas,
beduínas trilhando o Saara,
a utopia de Guevara,
maracatu, colombina,
a água animando a usina,
a flor tatuada em tua cara…

O meu verso, igual meu pão,
brota do aplauso que escuto.
E assim meu canto é um tributo
que te rendo a prestação.
Toma lá meu coração
e esta milonga que é fruto
da imensidão do minuto
de espanto da multidão
ante o fragor da explosão
de girassóis num viaduto.

II

A certidão que garante
que sim, de fato, nasci,
omite que sobre o Chuí
girava lua minguante
e que um bruxo itinerante,
com aparência feliz,
comia falsos rubís,
cuspia falsos diamantes;

fiscais e contrabandistas
brasileiros e orientais
cumpriam seus rituais
de não ver nem dar na vista;
prelúdios de acordeonistas
acalentavam casais
de peixes ornamentais
no aquário da trapezista;

antes que o outono se fosse,
feria abril a ameaça
de que o privasse de graça
um frio de inverno precoce;
os negros ainda de posse
de ancestrais crenças da raça
dançavam como quem caça
na quinta-feira de Oxóssi;

na ponta das alpargatas
meu pai andava e andava
procurando umas palavras
de utilidade imediata;
a meretriz que era beata
de um rendez-vous sem ressalvas
fingia-se estrela d’alva
pra os galos e os vira-latas.

às vinte e duas em ponto
me desatei a chorar;
o mar seguiu sendo mar,
nem mais nem menos revolto,
e até o borracho mais tonto
de cada balcão de bar
notou o tempo arrastar
tal dia, conforme os outros;

Ganhei do ventre materno
vida, alimento e abrigo,
amor e os cinco sentidos
com que ainda me governo
rumo ao céu ou ao inferno,
se é que existem tais destinos.
Pra viver é que me animo.
Eu não sei nada de eterno.

III

De vez em quando, em floreios
de milongas indomadas
evoco noites passadas
com a amante que ainda não veio;
me entrego a esse devaneio
como atravesso um labirinto
onde me orienta o que sinto
e avanço pelo que creio;

eu acredito piamente
que viemos de um mesmo parto
– o tempo, o espaço, os astros,
o peixe, o pássaro, a gente…;
um parto sem precedente,
nem tardio, nem prematuro,
que impôs a luz sobre o escuro
e o porvir sobre o presente;

confio nos sentimentos
dos confins da espécie humana
– fundos de pampa ou savana
aberta a todos os ventos;
é nesses acampamentos
que cada um avalia
com que porção de poesia
vai fabricar seu sustento;

me acostumei à dieta
de comer quimeras cruas,
mas em porções de uma ou duas
só o desjejum se completa;
minha fome analfabeta
faz crer que até muito velho
me nutrirei do evangelho
segundo as musas e os poetas;

quando se cala um cantor,
creio inquietar-se uma fera
enquanto não se apodera
do açoite e do domador;
e tenho fé que onde eu for
nenhum autor terá escrito
o último verso bonito,
a última história de amor;

de vez em quando, em floreios
de milongas indomadas
evoco noites passadas
com a amante que ainda não veio
– dois animais sem rodeios:
afago, afã, fogo e gozo!…
Dois animais em repouso
mirando um cometa boêmio.

IV

Lagoa, oceano, planície,
campinas, dunas, palmares.
Nunca souberam Matisse,
Renoir, Monet, Portinari
de onde esconjuro a barbárie
prevista no apocalipse.

Não vai nenhum dos flagelos,
não vão cruéis cavaleiros
– o do cavalo amarelo,
do branco, preto ou vermelho –
aniquilar o meu reino
vazio de muro e castelo.

Um dia, cigana ou fada
sábia de ver maravilhas
me disse que a grande amada
virá alumbrando as coxilhas
despida sob mantilhas
no ocaso de tardes pardas;

que a gente do meu apreço
no solo de Pindorama
produzirá sempre o avesso
da dor, do revés, do drama –
como o lírio rompe a lama
e exala perfume espesso.

Mas vá que em vez das venturas
que a adivinha predisse
desabem noites escuras
de perdição e sandice;
vá que a maldade enfeitice
as coisas e as criaturas.

Então, com restos de nós,
de lar, lavoura e jardim,
escombros de afeto e voz
e águas pluviais da Mirim
inverteremos o fim
da jóia de cafundós.

V

Colonia do Sacramento,
Nova Iorque, Soledade…
Caminho em todas cidades,
até naquelas que invento
desprovidas de cimento,
metais, minerais, madeira.
Afogados da Ingazeira,
Roma, Erechim, Budapeste.
Eu sou da estirpe que investe
em sonhos sem fundamento.

Luanda, Aceguá, Bombinhas,
Buenos Aires, Jaguarão…
Me alerta a grave impressão
de que as cidades são minhas.
Amsterdã, Cachoeirinha,
Paris, Canguçu, Belgrado.
É urgente adotar cuidados,
vigiar as autoridades,
dizimar a iniquidade
que anda empestando povoados.

Ai de ti, ai de ti
que entre pedras, vidro e aço
te iludes sempre em subir
desprezando a cada passo
o pai, a mãe e o guri
carentes de bens e abraços.

Lajeado, Cairo, Rolante,
Barcelona, Vacaria…
Pobres na periferia,
miseráveis mais distantes.
São Gonçalo do Amarante,
Canaã dos Carajás…
Desconheço Satanás,
mas, ao supor que ele existe,
duvido que esteja triste
se a injustiça o satisfaz.

São bilhões ao deus-dará
– e haverá deus que interfira?
Belo Horizonte, Altamira,
Passo Fundo, Bogotá…
Vagueia aqui, como lá,
desplumado passaredo
que vive como em degredo,
como num tipo de exílio
em que a casa nega ao filho
o abrigo, o leite, o brinquedo.

VI

O jogo de ficar vivo
não é de sorte ou de azar.
É duelo sem similar,
não só porque sucessivo
mas porque, uma vez perdido,
nunca mais se há de jogar.

Talvez eu perca amanhã
depois de um beijo na boca
enquanto a pintora louca
manchar o rio Camaquã
com sobras de estrela anã
num quadro de arte barroca.

Quem sabe, no réveillon
do ano 2010
não dancem mais os meus pés
e já não me alcance o som
dos ecos de um bandoneon
que abalou mil cabarés.

Pode que eu perca por doença
o jogo da sobrevida
ou com um tiro homicida
a adversária me vença
numa ponte de Florença
ou sobre a Calle Florida

No próximo carnaval,
quiçá eu já não me exiba
montado em ave que arriba
pra o verão do litoral
e me vista o enxoval
de água e lodo do Guaíba.

Mas até o fim da partida,
até que o duelo me esgote,
meu jogo é tentar que brote
da vida muito mais vida.
Quero mais do que a medida
dos sonhos de Dom Quixote.

VII

Ruas de terra no Chuí,
ruas de água em Veneza,
polvadeiras, correntezas…
minha pátria é por aí
– Guadalquivir, Jacuí,
pampa, Marte e redondezas,
brisa em manhãs camponesas,
ocas de taba tupi,
Marquês de Sapucaí
sagrando negras princesas,
botequins de Fortaleza,
fandangos de Quarai…

Serenatas siderais,
mutirões nos arrabaldes,
passeatas por liberdade,
romances sem porto e cais;
cafundós e capitais,
cultivos da flor da idade,
provas de que as realidades
e as fábulas são iguais…
de tudo exponho sinais
e haverá outros que eu guarde,
porém nenhum de saudade
– a vida é curta demais

dispenso mapa e agenda
para o meu itinerário;
cumpro o rumo e o calendário
que o coração recomenda
e assim vadio nas sendas
de um beco interplanetário
e danço no aniversário
de algum herói sem comendas
e invado as trinta fazendas
onde um luar sedentário
é o único vestuário
que envolve os corpos das prendas

a praia, a favela, o prado,
o povo, o horizonte, o charco,
a deusa em pé sobre o barco
que nunca esteve ancorado…
eu sou mais um no tablado
– azul e esférico palco –
tentando juntar os cacos
de poemas despedaçados

VIII

Yalorixá jogou
Yalorixá jogou
Yalorixá jogou três vezes os caurís
e Oxossi assegurou que serei feliz

Procurei saber nos buzos
qual será o resultado
de derrubar aramados
que cercam terras sem uso
– hei de ser dono ou intruso?
– hei de ter cela ou roçado?

Vi todas terras e oceanos
montado em potros sem rédeas
(quatro mil e tantas léguas,
lar de seis bilhões de humanos)
– que será deste cigano
rebelado ante a miséria?

Mundo adentro tantas musas,
corpo afora imenso amor…
– que vai ser deste cantor
quando a voz, quase reclusa,
não puder ninar as viúvas
e as morenas sem pudor ?

IX

A um aprendiz de poeta
deve ser útil o estudo
para saber o conteúdo
de toda jura secreta
e a chama que se projeta
de cada amante desnudo;

saber a cor escondida
na lágrima não chorada;
qual sonho desvia a espada
e frustra o gesto suicida;
quanta semente de orquídea
germina em boca esfomeada;

saber com que vitaminas
pode, o amor, ser nutrido;
e se é de ouro, pedra ou vidro
o coração da menina
que despreza a bailarina,
mas lhe cobiça o vestido;

Para um poeta aprendiz
convém saber se a ternura
resiste na criatura
cujo criador não a quis;
e a origem da cicatriz
oculta sob a pintura

saber se, de um corpo em ruínas,
restam sólidas raízes;
e o desandar das atrizes
depois que fecha a cortina;
e onde é que fica a oficina
das tecelãs de arco-íris;

passear em todos mistérios
sem pressa de desvendá-los,
ensaiar jograis de galos,
propor o fim dos impérios
e em lombo de astro gaudério
prender-se à vida num pealo

Canto X

Tinha razão a parteira
de origem ignorada,
íris da cor de esmeralda
e jasmins na cabeleira:
nasci pra vencer fronteiras
como o calor vence a geada

Do Rio Grande a Nova Dehli,
Sevilha, Havana, Corrientes…
vejo nos povos, parentes
me inspirando a que desvele
memórias à flor da pele
e pétalas entre os dentes

Percorri quase a metade
do século há pouco findo
e agora sigo construindo
obras sem muros e grades
– concretas como as vontades,
as ilusões, os domingos…

de útil aos comerciantes
não produzo coisa alguma
e é oportuno que resuma
meu ofício itinerante:
eu enceno a vida adiante
da sombra, do breu, da bruma…

Se a luz que nos alumia
se fez de energia e poeira,
talvez uma estrela andeira
adote por companhia
esta milonga que é cria
do ventre da vida inteira.

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