Memórias da Guerra dos Farrapos

Aqui me ponho a cantar
romance de antipoesia
– desses em que as três marias
cegam em vez de orientar
heróis se afogam no mar
e, em frente à casa vazia,
dama-da-noite doentia
se acaba sem flor e luar;

desses em que dois cantores
de trovas férteis festivas
dessangram em carne viva
sem melodias e amores
desvivem entre clamores
assombrações fugitivas
sílabas sopros saliva
trevas e talvez fulgores;

desses em que a dor flagela
o rio inunda o sol some
a adaga rasga o abdome
e o sonho da sentinela;
não resta estrela amarela
não há mais jardim que arome
e nem pão que abrande a fome
da viúva que se escabela;

romance de roupas rotas
utopias estropiadas
memórias alucinadas
de horror e paixão entre outras;
romance de feras soltas
e danças desesperadas
mortalhas de barro geada
pasto seco águas revoltas

– desses em que morte e vida
se opõem palavra a palavra
às vezes porque uma escrava
se vinga em cama proibida
ou porque a barca vencida
ninguém aprisiona ou salva
— é algo que explode e já é nada
como os vinte e dois suicidas;

desses em que o monstro avança
sobre a ralé desarmada,
corta cabeças à espada
perfura corpos à lança
se empolga pela matança
e celebra a madrugada
com vômitos de espingarda
e insultos de ódio e vingança;

desses em que tropa insana
assalta arromba golpeia
mutila estupra incendeia
devassa corrompe dana
bebe gargalha profana
destroça mata saqueia
um povaréu e sua aldeia
de areia e brisa oceânicas…

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