Duas flores

(com Jorge Mota)

Nesta madrugada sonhei que chovia
uma sinfonia doida, desvairada,
às vezes toada que me parecia
a do tal de Pedro que era uma parada,
de repente, batucada em romaria,
de repente, valsa imersa em tromba d’água,
lírica vanera em baile à fantasia,
xote laranjeira que o céu derramava…
eu sonhava ainda quando a luz do dia
suspendeu a farra e me chamou pra estrada.

No sonho mais rotineiro,
dos que me acordam feliz,
eu sou cantor e gaiteiro.
Sou o cantor e o gaiteiro
que entre Alegrete e Paris
inflama ardores de miss,
orgias de bagaceiros,
arrasta-pés galponeiros,
romances primaverís…

No sonho mais desordeiro
com que a vida me confunde
eu sou cantor e gaiteiro.
Sou o cantor e o gaiteiro
que atiça vício e virtude
(duas flores da inquietude)
sem fronteira e paradeiro
dos grotões sul-brasileiros
aos confins do mapa mundi.

Nos sonhos de desespero
com que a vida me provoca
eu sou cantor e gaiteiro.
Eu sou cantor e gaiteiro
na mansão e na maloca
vencendo a dor que sufoca
e arrombando o cativeiro
quando a música não toca.

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