De auroras e manhãs (Dança)

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(com Talo Pereyra e Mauro Moraes)
Intérprete: Talo Pereyra no LP 6ª Moenda da Canção / 1992

O gaiteiro parou. Alvoreceu.
Ana teve vontade de chorar,
mas em vez de dizer então adeus,
desatou-se a dançar, dançar, dançar.

Não queria a manhã que se anunciou,
tanta noite gastou-se a esperar
a palavra, a promessa, o novo amor
ou o nó que a ilusão sabe amarrar.

Era dia marcado a contragosto,
era o último baile do povoado,
era um olho molhado em cada rosto,
outro olho festivo, rebelado.
Era música urgente, beijo urgente,
era lágrima em véspera de lago,
era dança na véspera da enchente.
Uma gaita calada era pecado.

E ninguém no salão largou seu par
nem viúvas, nem amantes, nem irmãs.
O gaiteiro voltou a se animar.
A esperança e a fé são tecelãs.
Sabe lá, vão dar conta de tramar
mil auroras adiando mil manhãs.

O gaiteiro parou. Alvoreceu.
Mas que dia teria luz igual
ao olhar que brilhava em frente ao meu
e à paixão que explodiu noutro casal.

Quando as coxas mestiças de Jandira
se enredaram em coxas mais febris
houve juras eternas de mentira//
pra guardar em retrato um par feliz.

Era gente que iria pra fronteira
que divide o viver e a sobrevida
– um é água de rio, de cachoeira,
outra é água em represa, reprimida.

Era busca de vida, era vertente
tanta lágrima em véspera de lago,
tanta dança na véspera da enchente.
Uma gaita calada era pecado.

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