Declamador em cafundós

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     O programa previa um dia inteiro de festa: desde a manhã ao meio da tarde, banquete numa estância para acompanhar a marcação do gado; à noite, apresentação da invernada mirim do CTG Rodeio dos Palmares com mais uma exibição do declamador no clube da elite de Santa Vitória do Palmar. Tudo de bom para um domingo do fim da minha infância e do início da minha adolescência no extremo sul do Brasil. Mas acordei sentindo que doía um dente. Como era só uma dorzinha, não me queixei, não tomei nem pedi remédio e me juntei à gurizada na caminhonete que nos levaria da cidade ao campo. Já no caminho, porém, a dorzinha inicial se tornou dor intensa e, na chegada à estância, eu tinha certeza de que o dente acabaria com minha festa se eu não desse jeito de me salvar.
Não me lembro como, quando, onde, nem de quem e nem se eu ouvira mesmo o ensinamento de que nenhum remédio era mais eficiente para curar dor de dente do que um pouco de álcool – ou de cachaça, que era a mesma coisa, ou quase. Quanto mais forte a canha, melhor. Era só massagear com álcool ou cachaça a gengiva e o dente, ou deixar a bebida por alguns instantes na área doída, ou ainda fazer bochechos com cachaça – qualquer dessas fórmulas liquidaria a dor rapidamente.
Decidi me tratar pelo método que me parecia mais rápido e, sem que ninguém percebesse, me atraquei a fazer bochechos com cachaça – e a bebê-la.
Não sei com quantos bochechos e tragos me tratei. Ainda me vejo procurando um banco ou tronco pra sentar. Só deu tempo pra perceber que tudo e todos giravam bêbados – campo, céu, nuvens, bois, cavalos, cachorros, galos, gatos, árvores e gente.

     Então me fui. Apaguei.
Acordei sobre uma cama rodeada de gente apreensiva. E até agora escuto a voz da desconhecida que saudava meu retorno talvez a tempo de que eu pudesse me recuperar ou ser recuperado para o espetáculo da noite.
Me levantaram, me carregaram à carroceria aberta de uma caminhonete e me levaram pra cidade com esperança de que o vento na cara durante a viagem contribuísse pra minha recuperação.
Me deitaram na minha cama e me acordaram uma hora antes da apresentação no clube. Levantar, até levantei. Mas não consegui me manter em pé.
Naquela noite minha casa foi palco de intenso entra-e-sai e de muitas conversas em voz baixa. Até hoje não sei quem esteve lá e desconheço detalhes do que os visitantes conversaram com meu pai, Calixto, e minha mãe, Rosalina. Ninguém jamais tratou comigo desse assunto, mas, no fim das contas, poucos meses depois da primeira e última borracheira que tomei, embarcamos num jeep e mudamos para Pelotas – pai, mãe, eu e minhas duas irmãs, Edrocy e Cleusa. Pra mim era claríssimo que a viagem fechava o tempo em que vivi e fui declamador principiante em Santa Vitória.
Não imagino e nem tentei especular qual futuro teria lá. Mas nunca me assaltou a mais remota dúvida de que fui feliz onde nasci no início da manhã de 22 de abril de 1954 e morei pouco mais de 5.000 dias.

DELÍCIA DE VIDA

Na década de 50, a maioria dos poucos mil habitantes de Santa Vitória morava na zona rural. E passei meus primeiros anos entre casas na cidade – onde minha mãe era professora e de onde meu pai se ausentava com frequência para trabalhar no campo – e a fazenda de Manoel Amaral, casado com tia Lady, a mais próxima das muitas tias de minha mãe.
Foi nessa fazenda que comecei a ouvir canções gauchescas. Helena, que formava com tia Lady e com minha prima Gilda o mulherio da casa, mantinha o rádio ligado durante todo o dia. Adorava só Teixeirinha, mas ouvia tudo. E tudo era música regionalista gaúcha – e a novela “O Direito de Nascer”.
Tio Manoel, sempre atento e carinhoso comigo, fazia o possível para me interessar pelas atividades campeiras. Me deu uma sela e a cada manhã encilhava ou mandava encilhar um cavalo para que eu o acompanhasse em ronda pelos potreiros. Nunca lhe disse, mas tenho certeza de que ele percebeu, que essa era a única atividade campeira de que eu gostava. Fora as cavalgadas, o que me agradava mesmo era comer milho assado, tomar gemada, matraquear e jogar ludo, pif ou burro tisnado com as mulheres, quase sempre desconfiado de que tia Lady estava trapaceando – e estava. Delícia de vida.
Aos cinco anos, entrei para o jardim de infância na Escola Normal São Carlos, colégio particular administrado e mantido por freiras. Fui alfabetizado em casa e lá. O São Carlos era pertinho da casa em que morávamos, mas no meio do ano pedi pra sair, inconformado porque as freiras faziam rezar quatro vezes a cada manhã – no início da aula, na saída para o recreio, na volta do recreio e no fim da aula. Fui matriculado no Grupo Escolar Manuel Vicente do Amaral, mais de dez quadras longe de casa.
Aula mesmo não me atraía. Mas, tão logo aprendi a ler, ainda no jardim, me interessei por livros de versos. Em um ou dois anos, devorei todo repertório dos poetas gaúchos reunido por meu pai e mais antologias de Castro Alves, Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Fagundes Varela. Lia e relia até decorar aqueles que me mais impressionavam, tanto dos livros de meu pai quanto da coleção de capa dura, vermelha, que minha prima Gilda guardava ao lado da cama.

APRENDIZ DE ARTISTA

     Minha mãe, minhas irmãs e eu esquecemos se eu costumava declamar pelos cantos da casa ou se alguma outra razão fez meu pai me levar à Rádio Cultura. Provavelmente ele lembrava, mas morreu em fevereiro de 2009, perto dos 90 anos, antes de que eu cogitasse desta rememoração.
Do início de minha trajetória de declamador resta o testemunho do radialista Fernando Catarina. Ele garante que em 1962, quando chegou a Santa Vitória, eu já recitava poemas gauchescos no programa semanal Rodeio dos Palmares, da Rádio Cultura. Daquela época até o início de 1968, ou seja, entre os 7 ou 8 e os 14 anos de idade incompletos, experimentei a vida de artista aprendiz.
Fui feito Peri, sobre palco improvisado no auditório do ginásio estadual, para encenar com minha colega Viviane da Rosa um trecho de “O Guarani”, de José de Alencar, sob o estímulo incansável da professora Clayr Pinto de Oliveira Torino; o professor José Carlos Petruzzi pintou minha cara, meu pescoço e minhas mãos para me tornar o negrinho Cristiano na encenação da peça “Iaiá Boneca”, do escritor riograndino Ernani Fornari, no Cine Teatro Independência; venci os declamadores infantís e adultos no concurso realizado durante o Rodeio de Bom Jesus; como prêmio pela vitória, declamei em 1967 na edição de aniversário do Grande Rodeio, que já não se chamava Grande Rodeio Coringa, mas ainda era um programa de gigantesca audiência no Rio Grande do Sul e continuava apresentado na Rádio Farroupilha, a cada noite de domingo, pelos fronteiriços Darcy Fagundes (de Uruguaiana, declamador) e Luiz Menezes (de Quaraí, poeta e compositor).
Aos 13 anos, eu comandava o Rodeio dos Palmares. E declamava em shows e bailes. É de uma dessas apresentações, em 24 de junho de 67, a foto que está lá em cima. Com Henrique Dias de Freitas Lima na gaita.
Freitas Lima, promotor, formava com a esposa – professora Marília -, um casal singular entre aqueles que se instalaram em Santa Vitória nos anos 60. Era um par de animadores culturais, com imensa generosidade para compartilhar conhecimentos e semear entusiasmo sem trégua. No início da década de 70, em Uruguaiana, ele se tornou o primeiro presidente da Califórnia da Canção Nativa.
Recebi do doutor Henrique, mais do que o acompanhamento da gaita durante as apresentações, orientações inesquecíveis que certamente me seriam de grande valia para o futuro de declamador.
Não sabíamos – mestre e aprendiz – que esse futuro seria muito curto.
De fato, acabou em 1968, quando saí de Santa Vitória.
Desde então, só voltei a declamar duas ou três vezes, em Pelotas, num programa que apresentavam na Rádio Tupanci, a cada manhã de sábado, o gaiteiro Elton Barbosa e o violonista Luís Fernando.
Nunca mais.