Floreios, musas e poemas

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(com Talo Pereyra e João de Almeida Neto)
Intérprete: João de Almeida Neto no CD e no DVD Vozes Rurais Acústico / 2006

De vez em quando, em floreios
de milongas indomadas
evoco noites passadas
com a amante que ainda não veio;
me entrego a esse devaneio
como atravesso um labirinto
onde me orienta o que sinto
e avanço pelo que creio;

eu acredito piamente
que viemos de um mesmo parto
– o tempo, o espaço, os astros,
o peixe, o pássaro, a gente…;
um parto sem precedente,
nem tardio, nem prematuro,
que impôs a luz sobre o escuro
e o porvir sobre o presente;

confio nos sentimentos
dos confins da espécie humana
– fundos de pampa ou savana
aberta a todos os ventos;
é nesses acampamentos
que cada um avalia
com que porção de poesia
vai fabricar seu sustento;

me acostumei à dieta
de comer quimeras cruas,
mas em porções de uma ou duas
só o desjejum se completa;
minha fome analfabeta
faz crer que até muito velho
me nutrirei do evangelho
segundo as musas e os poetas;

quando se cala um cantor,
creio inquietar-se uma fera
enquanto não se apodera
do açoite e do domador;
e tenho fé que onde eu for
nenhum autor terá escrito
o último verso bonito,
a última história de amor;

de vez em quando, em floreios
de milongas indomadas
evoco noites passadas
com a amante que ainda não veio
– dois animais sem rodeios:
afago, afã, fogo e gozo!…
Dois animais em repouso
mirando um cometa boêmio.