Pela musa de João

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Qualquer antologia de música popular produzida no sul do Brasil será incompleta e, muito pior do que isso, será irremediavelmente injusta se não incluir a obra de João Palmeiro. Eu acho.

Há 20 anos o CD Águas abertas – gravado em 94 e lançado em 95 – exibe 18 canções de João. Para quem conhece mais, são só 18 – todas belas exemplares da obra inteira, mas poucas para o repertório que ele construiu sozinho ou em parcerias ao longo de mais de meio século.

João Palmeiro, o João da Benga, é inspiradíssimo compositor e poeta.

Foi Talo Pereyra quem me proporcionou a alegria de conhecê-lo em algum momento da segunda metade dos anos 80. Eles moravam num casarão de esquina na Avenida Teresópolis, em Porto Alegre, onde me abrigaram por dois ou três dias. Então ouvi João e me encantaram suas canções.

Me impressionaram, sobretudo, a imensa simplicidade e o vasto lirismo de seu repertório praieiro – de mar e de rios.

E me emocionou a generosidade dele ao me convidar a criar versos para duas músicas. Por necessidade, claro, é que não foi. Porque a audiência a João Palmeiro me fizera, de imediato e para sempre, admirador de seu trabalho. E evidenciara que João não precisava de parceiro(s).

Mas ele tinha uma nova musa, uma cantora, e queria homenageá-la ou, mais precisamente, cortejá-la oferecendo-lhe uma música. Criara um samba – ótimo – mas ainda era um samba sem versos quando cheguei. João me convidou a escrevê-los e duplicou o desafio pedindo letra também para outra canção recém criada.

Não tenho certeza se foi em uma ou em duas madrugadas que consegui me tornar parceiro de João Palmeiro. Mas é certo que aquelas letras foram as primeiras que escrevi sob encomenda para músicas já compostas; e que a letra do samba para a musa de João foi a primeira escrita exclusivamente para que uma mulher cantasse.

É verdade que duas das estrofes de Canto da roda, obra inicial da parceria de Ivaldo Roque e Talo Pereyra comigo, foram escritas para voz feminina – e interpretadas por Nana Ellwanger em 1979. Mas Canto da roda requer também uma voz masculina. O samba para a musa de João, não.

“Às vezes me acho perdida,

parece até que ando só (…)”

De qualquer modo, deve ser por qualquer outra razão que sumiu. A letra eu guardei sob o título Rosas demais no livreto de versos Romances de cafundós (1992), mas a música nunca mais ouvi depois que João a cantarolou no casarão. Já a cantora que inspirara João eu não vi nem ouvi jamais.

Ao contrário, a outra obra concluída durante a visita tornou-se uma das 18 canções do CD Águas abertas. João a batizou de No tempo e Flora Almeida (com Geraldo Flach ao piano, Ricardo Pereyra ao violino e arranjo de Toneco da Costa) dedicou-lhe uma interpretação que, mais de duas décadas depois, ainda me comove.

Demorou alguns anos, depois da parceria com João Palmeiro, para que eu cogitasse escrever outros versos para voz feminina. Voltei a fazer isso em 1992 com uma letra solitária que chamei de Amorosa. Com linda melodia de Talo Pereyra e Mauro Moraes, foi rebatizada para Milonga amorosa e ganhou magníficas interpretações de dois cantores – Chico Sarat e César Passarinho. Não tenho notícia de que alguma vez foi cantada por mulher – o destino que havia me motivado. Acontece.

Nova motivação veio no fim dos anos 90, quando produzi as letras para o repertório do CD Além fronteiras, de Loma. Mais tarde, novamente por provocação de Loma que preparava o CD Ziguezagueando, escrevi Feliz – primeira parceria com o compositor Daniel Pereira, filho dela. Em outra parceria com Daniel nasceu Romance das três viúvas – para três vozes femininas de uma vez só.

Foram escritas para voz feminina também algumas letras do repertório (quase todo ainda inédito) construído com o compositor Carlos Catuípe, para mais um projeto de Loma, e ainda Coração feminino, da parceria com José Cabrera que a atriz e cantora Laura Lobo, filha de Cabrera, interpreta no DVD Vínculos gravado ao fim de 2015. Já no CD Vínculos, a primeira etapa de um projeto coletivo idealizado e liderado por Cabrera em Brasília, Laura canta Nossas palavras, parceria anterior de Cabrera comigo, interpretada originalmente por Jô Alencar no CD Brasilidades, produzido em Brasília.

Que esta rememoração, aberta por minha reverência a João Palmeiro, seja compreendida também como manifestação de homenagem e, muito especialmente, de gratidão às artistas maravilhosas que emprestaram e emprestam seu talento, sua inspiração e seu carinho às canções que meus parceiros e eu produzimos – e não só para vozes femininas.

Neste blog reuni e podemos ouvir canções gravadas por Beta Jaeger, Clary Costa, Flora Almeida, Glória Oliveira, Greice Morelli, Jô Alencar, Laura Lobo, Loma, Maria Luiza Benitez, Mari Medina, Nana, Patrícia Magallanes e Shana Muller.

Eu as reverencio e, incansavelmente, aplaudo em pé.

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