Uma folia libertária

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Cada semana de carnaval em Pelotas, no início dos anos 70, foi temporada de dois monumentais desafios pra minha mãe e meu pai. O primeiro era me acordar; o segundo, garantir que eu levantasse.

Não porque eu gostasse de dormir ou de continuar deitado depois de acordar. A origem dos desafios a Rosalina e Calixto era de outra ordem e resultava de algumas circunstâncias:

– eu estava fascinado pelo carnaval de rua de Pelotas;

– trabalhava em rádio (a Pelotense);

– adorava participar das transmissões dos desfiles de blocos e escolas;

– cada jornada de cobertura do carnaval se estendia do fim da tarde/início da noite até o raiar da manhã, durante quase 10 dias;

– e eu, que ia dormir ao amanhecer, tinha que acordar logo pra voltar à rádio e reiniciar as atividades do jornalismo.

De maneira que a vida era, a cada carnaval, uma rotina de encantamento e de jogo bruto.

A mãe conta que eu reagia quase sempre da mesma maneira às tentativas iniciais que ela ou meu pai fazia pra me acordar. E a mesma maneira era um delírio.

“Primeiro o bloco. Depois do bloco eu vou.”

Enquanto durava a paciência e sobravam minutos, ela e meu pai chamavam “acorda, filho!”. Fracassavam. O que funcionava mesmo era ‘ROOOBSOOOOON!!!!!!!!”

Sobrevivemos em paz.

A folia nas ruas de Pelotas foi, na minha adolescência, uma impressionante revelação.

O que eu conhecia de carnaval, até nossa família se transferir de Santa Vitória pra Pelotas no fim dos anos 60, eram as fotos dos concursos de fantasias que as revistas editadas no Rio publicavam; e era a animação de minhas primas, tias e tios que antecedia – e, quase sempre, também sucedia – os bailes nos clubes da cidade e das praias do Hermenegildo e da Barra do Chuí. Além disso, despertavam minha atenção algumas músicas. A maior parte do repertório era de marchas – as “marchinhas carnavalescas” -, mas comecei a me interessar por marchas-de-rancho. Eram poucas e eu torcia pra que fossem tocadas na Rádio Cultura – Máscara negra (Zé Kéti e Hildebrando Mattos), As pastorinhas (Noel Rosa e João de Barro), Estrela do mar (Marino Pinto e Paulo Soledade), Ô abre alas (Chiquinha Gonzaga), Malmequer (Newton Teixeira e Cristóvão de Alencar), Confete (David Nasser e Jota Junior)…

Eis, então, todo o meu conhecimento de carnaval ao desembarcar em Pelotas poucos dias antes de mais um.

Mas, na verdade, não foi mais um. Foi o primeiro carnaval em que vi ruas tomadas por milhares de foliões que, de múltiplos modos, brincavam noite adentro, num pra-lá-e-pra-cá sem tréguas sobre as pedras que calçavam o centro da cidade. Desfilavam solitariamente ou em duplas ou em pequenos bandos. Até qualquer momento em que, aglomerados em multidão, formavam o que era chamado oficialmente de “bloco burlesco”.

“A gente chamava de blocos de esculhambação”, lembra Ayrton Centeno, que caiu naquela folia antes de entrar no jornalismo – e que nos últimos anos arquivou inédito um conto de evocação aos burlescos, afinal e felizmente publicado agora na seção Outras prosas deste blog.

Nunca fui folião. Mas também nunca mais deixei de pensar que carnaval só pode ser aquela esculhambação que faziam os blocos burlescos de Pelotas.

Entre o fim de 1980 e o início de 1981, ao contrapor à ditadura algo da democracia em Lambanças de cafundós, encerrei a segunda estrofe aludindo ao carnaval como uma folia libertária no verão. Com música de Talo Pereyra e interpretação de Paulo Gaiger, a folia libertária chegou à 12ª Califórnia da Canção no fim de 1982. Não sei se o repertório exibido nas 11 edições anteriores da Califórnia – nem sei se o das edições posteriores – contêm alguma referência ao carnaval.

Depois de Lambanças de cafundós, citei o carnaval ou algum elemento carnavalesco em, pelo menos, 15 letras – entre outras, Brasilhana, Canto popular, Matreiras, Saudade do futuro (ao estilo dos sambas de enredo), Lavanda e lírio e cantos de Milonga da vida inteira.

Devo essa inspiração aos foliões de Pelotas – como o Peri Porraça da foto abaixo, um notável do bloco Tira o dedo do pudim, flagrado e guardado por Ayrton Centeno.

Quase ao fim da década de 70 alguns aproveitadores de escolas de samba de Pelotas cogitaram acabar comigo, mas essa é outra história.

Peri Porraça diante do bar do seu Dario - Foto Ayrton Centeno

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