Loma, além fronteiras (novembro/1999)

Loma, cantora que estréia em Brasília no próximo dia 10 em curta temporada no Feitiço Mineiro, traz na bagagem para lançamento seu disco Além-fronteiras. No trabalho transparecem iniciativa de grupo, ao mesmo tempo que mostra unidade.

No disco, instrumentistas, poetas, arranjadores e compositores parecem ter trabalhado todos em grupo para um resultado comum em cujo resultado final está a intérprete.  Fazendo um mapeamento de ritmos brasileiros, o disco é maduro, feito com paciência, holístico. Transcende à prateleira dos ‘bem-intencionados’ e vai para a da antologia musical brasileira. 

Gaúcha com talento e maturidade

Ary Pára-Rayos, de Brasília

Loma, cantora que estréia em Brasília no próximo dia 10 em curta temporada no Feitiço Mineiro, traz na bagagem para lançamento seu disco Além-fronteiras. O trabalho tem duas características próprias e raras. Transparece iniciativa de grupo e, ao mesmo tempo, mostra unidade. Quando apresenta um trabalho fechado, como obra inteira, mostra também uma diversidade arrojada.

Instrumentistas, poetas, arranjadores e compositores parecem ter trabalhado todos em grupo para um resultado comum em cujo resultado final está a intérprete. Fazendo um mapeamento de ritmos brasileiros, o disco é maduro, feito com paciência, holístico. Transcende à prateleira dos ‘bem-intencionados’ e vai para a da antologia musical brasileira.

   Além-fronteiras não poderia ter título mais adequado. Um susto para quem espera algum sotaque, seja ele carioca, nordestino ou sulista.

“Quem vê meus pés em valsa, mal sabe de onde eu vim./ Soa, cabaça; vibra, atabaque/ delira, tamborim./Eu vim de muito longe,/de terras que o mar lambe,/de onde se grita e o eco responde:/ batucajé, candombe./Eu vim do carimbo, do samba e do lundu,/bati zabumba no bendenguê e no maracatu”.

A faixa De onde eu vim, de João de Aquino e Robson Barenho, é um bom retrato disso. A identidade e a origem negras estão ali nos sentidos literal e musical. Aquino, responsável pela produção musical do disco, teve cuidado e sutileza para não ser um disco didático, afetado. E justifica o conceito de sem-fronteiras.

Entende um som básico brasileiro como se estivesse sempre à espera de quem chega pelas praias do sul. Mas o estende e o especifica na chegada dos navios negreiros mais do que os dos colonizadores. Sem-fronteiras mostra-se aberto mas não nega a preferência pela aculturação. De onde eu vim define o critério. Começa suave, com um ritmo afro percutindo o grave do piano, segue com rabecas nordestinas (sampleadas?) e sanfona que vão aos poucos crescendo para os couros, registros africanos. Atabaques e tambores caxixi e triângulo entram sutis depois da entrada da cantora. Não há ali o proselitismo de quem espera estar sendo reconhecida pelo trabalho que desenvolve. A artista não é afetada por excessos. É discreta, brinca com a voz, homenageia fazendo citação vocal de Clementina de Jesus. Experiente, não cai na caricatura, não se entrega ao apelo fácil. Dá beleza e a estende ao resto da música.

Neste CD fica evidente a performance que levou João de Aquino mais os compositores gaúchos Robson Barenho, Kako Xavier, Leonardo Ribeiro, Ivaldo Roque, Zé Caradípia e Talo Pereyra a produção de disco que explora a versatilidade e a força da voz da intérprete.

A voz como instrumento, em Além-fronteiras,  não fica em improvisos jazzísticos, não se caracteriza como escola. Foge dos rótulos. Se entrega à palavra, dá ênfase ao poema, mostra cuidado pela letra, tanto quanto pela desenvoltura musical de quem trafega por maçambiques, batuques, fandangos, forrós, toadas, salsas e mambos.

O som caribenho de Mercosur 21, um merengue em delicioso portunhol, de Leonardo Ribeiro e Robson Barenho, também um escracho anarquista que lembra na letra o tango Cambalache, mostra a competência da estrela Loma. Com o som de Jorginho do Trumpete lhe fazendo contraponto, dá molho latino ao seu disco. Mas haja sambas, toadas, poesia e alegria para a voz competente de Loma. Que brevemente nos brindará com sua presença por aqui.

(Transcrito do caderno de Brasília da Gazeta Mercantil)

 

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