Qualidade das músicas dos festivais gaúchos nunca foi tão baixa (agosto/2015)

Juarez Fonseca

Realiza-se neste sábado (15/8) e domingo (16/8), em Santo Antônio da Patrulha, a 29ª Moenda da Canção, um dos poucos festivais gaúchos nunca interrompidos e que se mantém bem. Acompanho os festivais desde o início, como repórter de ZH registrei o auge do movimento, até mais ou menos o final dos anos 1980. Depois as coisas começaram a ficar meio estranhas, com queda geral na qualidade. Além de constatar isso ao integrar comissões de triagem, sigo observando em várias listas de selecionadas que muitas músicas se repetem em festivais diferentes. Em vez de buscar uma canção melhor, o autor reaposta na própria ruindade.

No tempo das vacas gordas, mais de 70 festivais de música regional espalhavam-se pelo Estado. Hoje, o calendário do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore anota quase 50. Mas no máximo uns 10 têm alguma (pouca) relevância. Nestes, o volume de músicas inscritas oscila entre 300 e 500, dependendo da quantidade que cada autor pode inscrever – há festivais que aceitam três, outros recebem seis e até mais. O número de três, predominante até os anos 1990, foi estabelecido pela pioneira Califórnia da Canção Nativa, criada em 1971 em Uruguaiana e que em dezembro deverá realizar a 39ª edição.

Originalmente, os festivais selecionavam 36 músicas, delas saindo as 12 finalistas para formar o disco – o LP tinha em geral 12 faixas. Mais tarde (virada dos 1990 para os 2000), dois fatores levaram os dirigentes a reduzir para 24 (e até 18) as concorrentes. Um econômico: poupar o dinheiro da ajuda de custo aos autores, pois a dificuldade na obtenção de patrocínio virou regra. O outro, artístico: a qualidade havia despencado. Tirar 36 músicas boas ou mesmo razoáveis de 400 inscritas passou a ser um problema. Os dois fatores prejudicaram em muito a própria Califórnia, outrora gigante.

Na verdade, o fenômeno da queda na qualidade já havia sido detectado antes. Ligava-se ao grande número de festivais para os quais os artistas por eles revelados estavam mandando músicas, e ao interesse que seu sucesso despertou nos novos, aumentando em muito os concorrentes sem experiência ou livre-atiradores em busca de evidência – havia grande cobertura da imprensa. O júri de triagem da Califórnia de 1981, do qual fui um dos integrantes (com Apparício Silva Rillo, Luiz Carlos Borges, Mauro Aymone Lopes e Diogo Madruga), redigiu a chamada “Carta de Uruguaiana”, que provocou polêmica por alguns a considerarem ingerência na liberdade criativa.

Como registra Colmar Duarte no livro Califórnia da Canção Nativa ­– Marco de Mudanças na Cultura Gaúcha (Editora Movimento, 2001), a “Carta” chamava a atenção para o uso repetitivo de clichês e frases feitas, alertava para uma certa compulsão ao passado e à infância na maioria dos temas e criticava a falta de enfoque na realidade contemporânea do Rio Grande do Sul. Vale lembrar que a vencedora daquele ano foi a definitiva Desgarrados, de Mário Barbará e Sergio Napp, que não se encaixava em nenhuma dessas observações – como tantos outros clássicos deixados pelo festival.

Se com o tempo os principais compositores e intérpretes, tendo já carreiras consolidadas, se afastaram, e se poucos novos se destacaram a partir dos anos 1990, imagine-se a que ponto chegou a questão da qualidade. Fazer triagem se tornou quase um teste de resistência à frustração: o sujeito ouve 500 músicas para extrair 10 fracas, 10 mais ou menos, três boazinhas e uma boa, raramente alguma muito boa. Ótima, nem pensar. Como eu disse, há várias canções ruins que circulam de festival em festival apostando em descuido ou despreparo das comissões de triagem. E às vezes conseguem.

A baixa qualidade da imensa maioria das músicas inscritas atualmente chega a ser desconcertante. Letras tortas, chavões, imagens pueris ou de falso folclore, oba-oba “bagual”, passadismo, melodias canhestras que parecem plágios umas das outras, e muito gritedo como se fosse um “estilo”. A impressão que se tem é que os novos/velhos compositores não ouvem boa música. Ou não fariam o que fazem. E aí está o pior de tudo: a falta de autocrítica. O que, aliás, em parte significativa do Rio Grande de bombachas, não é privilégio deles.

(Crítica publicada na coluna de Juarez Fonseca, em Zero Hora de 14/08/2015)

Uma opinião sobre “Qualidade das músicas dos festivais gaúchos nunca foi tão baixa (agosto/2015)”

  1. Excelente e maduro comentário, embasado na realidade dos festivais atuais. Muita música e pouca qualidade, premiando, entre poucos que se salvam, uma mediocridade cada vez maior que vai desgastando os festivais e deencantando quem escreve a nivel de Robson Barenhos e compoem musicas a nivel de Talo Pereyra. Parabéns Robson pelo excelente trabalho.

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