Além-fronteiras

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A conversa telefônica de que eu participava no início das manhãs, desde Brasília, com o apresentador do noticiário da Rádio Pelotense, Henrique Pires, terminou surpreendente na segunda-feira 20 de março de 2000. Foi com música. Com a gravação de uma das faixas do CD “Além-fronteiras” lançado pela cantora Loma em 17 de agosto do ano anterior.

Música no ar, ele deu a notícia: na noite de domingo, “Além-fronteiras” fora declarado vencedor do Prêmio Açorianos na categoria Melhor Disco de Música Popular Brasileira; e Loma também ganhara o Açorianos, pela performance em “Além-fronteiras”, como melhor intérprete de MPB.

Instituído no fim da década de 70 pela Prefeitura de Porto Alegre, o Açorianos era – e ainda é – o principal prêmio concedido no Rio Grande do Sul a artistas, produtores, produtos e atividades artísticas e culturais. E a dupla premiação a “Além-fronteiras” se constituía, no mínimo, num atestado vigoroso de que tínhamos feito um bom trabalho – Loma, eu e um elenco magnífico de compositores e de músicos.

Havia passado mais de uma década desde que Talo Pereyra me revelara, por carta ou telefonema, que começara a trabalhar com novos parceiros.

“Estou fazendo algumas coisas com Cao Guimarães e Loma”.

Eu não conhecia o casal. Mas soubera de Loma por Ivaldo Roque. Loma participara do grupo Pentagrama, criado por Ivaldo e Jerônimo Jardim em 73. Cantou no Pentagrama enquanto ele durou, até 1976; destacou-se nos festivais do estado e por três anos seguidos – os últimos daquela década – foi apontada pela crítica como a melhor cantora do Rio Grande do Sul. Em 80, Loma e Cao iniciaram temporada no Rio. Ficaram cinco anos. Na volta para Porto Alegre, Loma lançou o primeiro LP – todo com músicas de artistas gaúchos, como seriam também os futuros trabalhos. E começaram, ela e Cao, a fazer “algumas coisas” com Talo.

O primeiro resultado que me chegou dessa parceria está em “Toda mulher”, uma fita gravada em junho de 1987, no estúdio Eger, de Porto Alegre, com produção financiada – ao menos parcialmente – pela venda de bônus.

É uma obra de alta qualidade que me impressionou fortemente à época e me impressiona hoje. Reúne ótimos sambas de Cao, uma canção de Giba Giba e Wanderley Falkemberg que considero encantadora (“Lugarejo”), uma belíssima canção de Cláudio Levitan (“Desnuda”) e uma interpretação primorosa de “Liberando”.

Uma das duas obras fundadoras da parceria de Ivaldo Roque e Talo Pereyra comigo, “Liberando” foi escrita e musicada em 1979 (em repúdio à ditadura militar). No ano seguinte, meus parceiros a inscreveram na 1ª Guarita da Canção, festival criado na cidade litorânea de Torres com abertura para múltiplas tendências musicais, o que o diferenciou de todos os que haviam surgido na década anterior sob inspiração da Califórnia da Canção Nativa. Ivaldo e Talo exploraram a abertura da Guarita entregando “Liberando” à cantora Beta Jaeger e ao então nascente grupo instrumental Cheiro de Vida, em atividade a partir de 1979, liderado por André Gomes e formado ainda por Alexandre Fonseca, Carlos Martau e Paulinho Supekóvia.

Beta e a banda levaram “Liberando” ao 2º lugar na 1ª Guarita (cujo LP, raríssimo, alcança atualmente cotação próxima a R$ 100 no Mercado Livre).

Loma como que recriou “Liberando”, sete anos após a performance de Beta e do Cheiro de Vida na Guarita, ao gravá-la com Talo no violão e na mulitarra (invenção dele), Texo Cabral na flauta, Carlos Perez no bombo leguero e, no vocal, Kazu e mais múltiplas vozes de Loma.

CARNAVALITO LEVANTA ARQUIBANCADA

Em 1988 a “nova parceria” de que Talo me falara levantou quatro prêmios na 2ª Primavera da Canção, em Caxias do Sul: 1º lugar, Melhor Intérprete para Loma, Melhor Arranjo para Cao Guimarães e Melhor Instrumentista para João Vicente (gaita); e classificou “Festa setembrina” para a 9ª edição da Ciranda Musical Teuto-Rio-Grandense, em Taquara. Foi onde – e quando – conheci Cao e Loma.

Talo havia feito de “Festa setembrina” um carnavalito, ritmo e dança cuja origem remonta a comunidades andinas pré-colombianas e cuja sobrevivência ainda é garantida por nativos de algumas regiões da Bolívia, da Argentina, da Colômbia, do Peru e do Chile.

Não havia obra similar a “Festa setembrina” em todo o gigantesco repertório exibido nas quase duas décadas de festivais que antecederam a 9ª Ciranda.

Classificada para a finalíssima, Loma foi ao palco com uma banda extraordinária, pela qualidade dos músicos e também pela raridade e a diversidade do instrumental. Era formada por Talo com sua exclusiva mulitarra, mestre Neri Caveira (tumbadoras e apitos), Ernesto Fagundes (bombo leguero, triângulo e maracá), Texo Cabral (flautas doce e transversal), Neto Fagundes e Marcelo Paiva (violões), Giovani Berti (pandeiro e tumbadores) e Polaco (caixeta, pratos e reco-reco na tábua de lavar).

Foi espetacular.

Loma e a banda levantaram a arquibancada.

O público dançou do início ao fim a “Festa Setembrina”.

Mas o júri concluiu que só o arranjo merecia prêmio.

A música está no LP da 9ª Ciranda. E Loma voltou a gravá-la no LP “Um mate por ti”, de 1991, em que canta parte do repertório que defendeu nos festivais.

UM REPERTÓRIO PARA ESCAPAR À ROTINA

Na segunda metade da década de 90, ou seja, à beira do ano 2000, a história de Loma nos festivais do Rio Grande do Sul estava próxima de completar três décadas; a minha, só um pouco menos.

Em algum momento de 1998, numa de minhas andanças pela ponte rodoaérea Brasília/Porto Alegre/Pelotas, nos encontramos em almoço no restaurante da Casa de Cultura Mário Quintana, onde ela trabalhava para o Instituto Estadual de Música. Declaramos disposição para produzir algo que escapasse à rotina já antiga, mas não chegamos a expor ou especular qualquer ideia sobre o que fazer.

No vôo de volta a Brasília, comecei a pensar na hipótese de produzir um repertório que fosse ou que me parecesse adequado a Loma; um pequeno repertório – talvez umas 10 letras ou pouco mais – para um disco e/ou show descomprometido com a música regionalista. Duas ou três noites depois passei a escrever.

Iniciei pensando que já tinha, mais do que uma letra, um samba inteiro – e de que gostava muito. Parceria de Ivaldo e de Talo comigo, “Passarada” foi criada no início dos anos 80, gravada por Glória Oliveira com arranjo e acompanhamento de Toneco da Costa no LP do Projeto Unimúsica, em 1984, e não tive nenhuma dúvida de que estava, quase 15 anos depois, absolutamente identificada com o tema que me propus a desenvolver em além-fronteiras. Eu sabia que não precisava e, acima disso, sabia que, se precisasse, não conseguiria produzir outra “passarada”.

Minha memória não guardou o tempo que a produção das letras novas consumiu. Foram seis ou sete meses, talvez.

Com algumas concluídas, contei a Loma o que estava escrevendo e projetando. Até que voltei a Porto Alegre e lhe entreguei 13 letras, mais a de “Passarada”.

Loma se propôs a escolher os compositores a quem pediria as músicas. Elegeu João de Aquino, com quem trabalhara no Rio, Kako Xavier, Leonardo Ribeiro e Zé Caradípia – o único a quem eu conhecia e de quem já era parceiro. Havíamos nos encontrado algumas vezes e ele havia composto com Talo a música de “Cantiga do oferecido”, finalista do 4º Musicanto Sul-Americano em 1986.

De João de Aquino eu sabia muito superficialmente. Lembrava de “Viagem”, uma linda canção e a mais famosa da parceria fértil que ele manteve com o letrista Paulo César Pinheiro em Angra dos Reis e depois no Rio. “Viagem” é largamente apontada como um clássico da MPB. Eu já ouvira também que João era um requisitado maestro e produtor musical – e Loma reservara a ele também essas duas tarefas.

Leonardo Ribeiro e Kako Xavier eu ainda não tinha visto e nem ouvido. Nos dois casos, por conta de minha ausência do Rio Grande do Sul a partir de 1981. No caso de Leonardo, também porque ele construíra praticamente toda sua trajetória na Europa.

Loma entregou cinco letras a João de Aquino, quatro a Leonardo, duas a Caradípia e duas a Kako.

A formação do repertório, então, avançava. Era essencial, mas era só o começo. De 1979 em diante eu jamais escrevi uma letra pensando em engavetá-la. De modo que não teria sentido, 20 anos depois, criar um repertório para confiná-lo a uma gaveta ou mesmo a um gravador. Havia, portanto, que providenciar algum destino para as músicas de “Além-fronteiras”.

Qualquer destino posto em especulação parecia exigir a prévia gravação do repertório. Um CD nas mãos, com boa qualidade, talvez favorecesse o acesso a alguma gravadora que, afinal, se interessasse em editar, distribuir e promover “Além-fronteiras”.

Mas era prudente considerar, também, a hipótese de que não despertássemos interesse em nenhuma gravadora. Aí restaria bancar, além da produção e da gravação do CD, a trajetória que fosse possível bancar com ele pronto. Por isso e também para atender uma série de formalidades e exigências legais tornou-se indispensável criar uma produtora e editora musical, que batizei como Cantarte e que acabou por ser o selo do disco.

No primeiro trimestre de 99 tínhamos “Passarada” (Ivaldo/Talo/Robson) e mais 11 músicas: “Além-fronteiras”, “De onde eu vim”, “A Festa das Yabas”, “Fogueira” e “Luz de refletor”, da parceria com João de Aquino; “O mundo é nosso”, da parceria com Kako Xavier; “Saltimbanco”, “Mercosur 21” e “Palco”, da parceria com Leonardo Ribeiro; “Enfeitiçada” e “Corpo afora”, da parceria com Zé Caradípia. Das 13 letras inéditas, duas haviam sido descartadas.

Os 52 minutos de música de “Além-fronteiras” foram gravados em abril no Bobby Estúdio, de Santa Maria, com a participação de 20 músicos: Antonio Ricardo, Clóvis Boca Freire, Edu Pacheco, Elias Rezende, Felipe Lua, Giovani Berti, Gustavo Assis Brasil, João de Aquino, Jorginho do Trompete, Kako Xavier, Isamar Martins, Luiz Martins, Luiz Mauro Filho, Luiz Santos, Marcelo Freitas, Paulinho Bracht, Pedrinho Bozo, Pedro Figueiredo, Ricardo Freire e Toneco.

Ao receber de Loma o resultado do trabalho, pedi que “Além-fronteiras”, a faixa título, ganhasse novo arranjo. João já retornara ao Rio, mas havia arranjado a música, que abria o CD, com introdução e várias intervenções de uma gaita tipicamente gauchesca, o que me pareceu inteiramente desajustado não apenas àquela canção, mas à concepção de todo o trabalho. Toneco, que comandara os ensaios e tocara violão em todas as faixas, produziu o novo arranjo.

O primeiro CD de Loma e único da Cantarte foi lançado, com mil cópias, na noite de 17 de agosto de 1999, em evento na Casa de Cultura Mário Quintana.

Para apresentá-lo, escrevi:

“Além-fronteiras. Além dos limites da geografia e da moda e da sensatez e da mesmice, por exemplo.

   Um salto nunca ensaiado. Do resgate do Maçambique secular dos negros que habitavam o litoral Sul à salsa que embala o Caribe.

   Canto de Loma. Com certeza nascido das almas e das ruas, porque tem a força vital dos sentimentos mais profundos e das manifestações populares, o canto de Loma escorre dos palcos, se esparrama, transborda, vida adentro e corpo afora. Além-fronteiras.

   Com Loma estão, vigorosos e sábios, o compositor e maestro João de Aquino e os compositores Leonardo Ribeiro, Talo Pereyra, Ivaldo Roque, Zé Caradípia e Kako Xavier. E está a energia de Toneco da Costa e de mais 16 músicos raros como ele, excepcionais mesmo, eu acho.

   Encantado aprendiz das artes deles, muito mais do que parceiro, abro um convite a vocês:

Venham e andemos

Novos horizontes calles abertas céu e chão de sobra

O mundo é nosso

 

Batuques toadas salsas sambas

Baticuns folias forrós fandangos

Carícias e forrobodós

Sons em movimento

Além-fronteiras”

 

Em Brasília, onde “Além-fronteiras” foi lançado em novembro no prestigiado bar Feitiço Mineiro, o crítico musical Ary Pára-Raios publicou extenso comentário na Gazeta Mercantil. Na opinião dele, o CD – que produtores de grandes gravadoras desprezaram em Porto Alegre, no Rio e em São Paulo – “transcende a prateleira dos ‘bem-intencionados’ e vai para a da antologia musical brasileira”.

Quase ao mesmo tempo, na edição de 14 de novembro do ABC Domingo, editado pelo Grupo Sinos, o crítico Juarez Fonseca classificou “Além-fronteiras” como “o melhor disco de cantora” até então “produzido no Rio Grande do Sul e um dos melhores lançados no Brasil nos últimos tempos”.

   Na metade de 2012, Loma me propôs um segundo projeto, com um novo parceiro. Desta vez, Carlos Catuípe, músico, cantor e compositor de primeira linha devotado à cultura afro-açoriana, que projetou com vasto e belo repertório formado em parceria com Ivo Ladislau e outros letristas.

Nos reunimos quatro ou cinco vezes em Porto Alegre e produzimos 11 canções ao longo de aproximadamente um ano. Mas a morte de Catuípe, em 3 de janeiro de 2014, deixou inconcluso o trabalho.

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