Cantos da roda e de exílios

Numa das últimas churrasqueadas familiares de ano novo promovidas por meus tios Quincas e Leda e meus primos, no Balneário do Hermenegildo, fui surpreendido por uma revelação de meu pai ao fim de um discurso inesperado, breve, emocionado e comovente:

“Gosto muito de algumas letras. Mas a melhor pra mim, a que mais me agrada é esta aqui.”

Acionou o gravador e passamos a ouvir a flauta de Texo Cabral, os violões de Yamandu Costa e de Talo Pereyra, o contrabaixo de Clóvis Boca Freire, a voz de João de Almeida Neto e a percussão de Fernando do Ó.

A preferida do velho Calixto, passei a saber, era “De terra e lua pampeira”, parceria de Talo e de Mauro Moraes comigo.

A preferência me surpreendeu imediatamente e admito que me custou algum tempo compreendê-la.

Escrevi “De terra e lua pampeira” em 1996 ou 97 com a intenção de fechar um segmento de repertório que iniciara com “Canto da roda”, em 1979, e que, em essência, traduzia (e ainda traduz) minha visão sobre o universo rural gaúcho, mais precisamente sobre as relações entre os ricos e os remediados e pobres, entre os patrões e os empregados do campo, entre os que tinham e os que não tinham terra.

“Canto da roda” protesta contra a exploração de homens e mulheres no campo. Escrita e inscrita na 9ª Califórnia da Canção quando uma legião de colonos sem-terra acampava desde alguns meses em Encruzilhada Natalino, no embrião do que se tornou anos depois o MST, foi selecionada pela comissão de triagem para concorrer ao festival; levada ao palco por Raul Ellwanger e Nana (intérpretes) Talo e Toneco da Costa (violões) e Zé Gomes (rabeca), foi classificada pelo júri para a finalíssima e o disco. Não foi premiada e há quem diga que acabou varrida dos arquivos da Califórnia, onde não restaria agora mais nenhum registro de sua inclusão no festival. Confio em que isso é mentira, até porque a presença da música no LP da 9ª edição – e na internet há largo tempo – tornaria inútil esse insulto e atentado à memória do festival.

De qualquer forma, é certo que “Canto da roda”, ao mesmo tempo em que provocou algumas manifestações positivas de surpresa e admiração, despertou, principalmente, desprezo e repúdio no ambiente da Califórnia formado pelas parcelas de público, de artistas, de organizadores e de promotores que negavam e se opunham à visão expressa na letra.

Tanto os sentimentos positivos quanto os negativos inspirados por “Canto da roda” se repetiram à medida que meus parceiros e eu tratamos do mesmo tema, com a mesma visão, em canções que levamos depois à própria Califórnia e além dela.

Alguns letristas e compositores seguiram caminho semelhante; mas muitos mais letristas e muitos mais compositores produziram canções com visão oposta à nossa ou se omitiram  sobre o tema. Isso não tornou qualquer artista superior ou inferior a outro, mas é óbvio que tornou a produção de alguns essencialmente desigual à de outros.

Meus parceiros e eu produzimos, depois do “Canto da roda” levado à Califórnia de Uruguaiana,  “Romance campesino”, “Trem das sete” e “Quando o piá for peão” (Ciranda Musical, em Taquara); “Irineu” e “Noturna e linda” (Musicanto, em Santa Rosa); “Xucra e forte” (Grito do Nativismo, em Jaguari); “Braço, paixão e fé” (Ciranda, em Taquara, e Acampamento da Canção, em Campo Bom); “De auroras e manhãs” (Moenda da Canção, em Santo Antônio da Patrulha)… Até “De terra e lua pampeira” (Canto da Lagoa, em Encantado). É a letra que persegui durante algum tempo para encerrar a produção desse segmento de repertório por concluir que, nele, havíamos cantado tudo o que quisemos cantar. E é, acabei por saber, a letra que mais emocionava meu pai.

Calixto nasceu no campo, adorava a vida no campo e viveu no meio rural todo o tempo em que isso lhe foi possível. Funcionário público estadual especializado em ovinocultura, conheceu bem cada estância, cada chácara, cada palmo da planície de Santa Vitória e de onde mais a vida o levou.

Homem de formação conservadora, respeitoso à ordem pública e à propriedade privada, reconhecia injustiça social no campo, mas reprovava duramente as ações do MST.

“De terra e lua pampeira” é desigual a “Canto da roda”. Mas também alude criticamente ao ambiente rural do Rio Grande do Sul. O personagem da letra é um exilado do estado que evoca o quê e quem perdeu ou teve que deixar ao se afastar da terra nativa “pra plantar e pra colher”.

Tenho certeza de que meu pai reconheceu essa alusão – e relevou. Foi interessado e comovido pela solidão, a nostalgia, a saudade do personagem distante da terra. Era como ele mesmo se sentia desde que passou a viver fora dos campos. Quer dizer, no exílio.

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