Um bochincho cultural muito criativo: a XII Califórnia (1982)

blog outras prosas vals 001

Luiz Fernando Vals

   Discutiu-se muito nesta XII Califórnia da Canção. Aliás, não podia ser diferente: organizado em torno de um festival de música, o evento encerra concorrência, competição, enfrentamento. O público da Califórnia já está acostumado a isso e desde o primeiro dia de apresentação tem teorias sobre quem vai ganhar, por que, e quem foi “barbaramente prejudicado”. Este ano, com o anúncio das classificadas para a gravação do disco atrasado para o sábado, a grita dos eliminados começou mais tarde mas, de qualquer forma, foi sentida.

Gritaram os saudosistas. Campesina, vencedora na linha de Projeção Folclórica, inclui uma bateria no arranjo, o que é crime imperdoável de lesa-tradição. E mais: de seis músicas inspiradas na nostalgia (falamos da nostalgia, com tonicidade no tal, um sentimento fortemente castelhano), classificou-se apenas Faz de conta. Sina Gaudéria, Conselhos (que conta a inacreditável história de um peão que juntou uns cobres e vai mandar o filho estudar fora), Reculutando lembranças, Reminiscências e Infância, Tempo de Guri sobraram.

Faz de conta foi defendida por Cesar Scouto, o Passarinho, premiado mais uma vez como melhor intérprete. Passarinho foi aplaudido de pé, apesar de não conseguir mais decorar as letras que canta. Há quem veja em sua figura o símbolo do peão negro, que se desgasta fisicamente na tarefa de preservar o patrimônio do estancieiro. Ninguém nega que Passarinho é quem melhor defende o patrimônio poético do excelente letrista Colmar Duarte.

Gritaram também os inovadores.

“Festival que elimina Jerônimo Jardim, Bebeto Alves, Talo Pereyra, não deve ser levado a sério” foi uma observação comum ao grupo. Neste sentido, premiando com a Calhandra de Ouro a música de bailão, Tertúlia, o júri limitou a modernização do festival. A mazurca Das salamancas, anunciada como música de tema moderno na lista de classificadas e premiada como Melhor Tema Ecológico, fala na “garoa da radiação”. Desde 1945 a radiação atômica já foi intensamente cantada. Hoje, a preocupação maior seria com o uso de agrotóxicos ou o Pólo Petroquímico, o que deixa Das salamancas com um jeito anacrônico de moderno-antigo.

A rejeição do xote Lambanças de cafundós, de Talo Pereyra e Robson Barenho, começou no nome, esterilizado para Lembranças de cafundós no programa oficial da Califórnia. A letra iniciava com “Tem um vigário que é gerente de bailão neste rincão subversivo ou reacionário”. Foi o suficiente para os jurados, liderados pelo tradicionalíssimo Glênio Fagundes, não conseguirem entender mais nada. O tatu de Colmar Duarte, Roda e esperança, também não passou para o disco (“O tatu chegou em casa e apanhou como um danado; tinha cruzado a lavoura e ficou dedetizado”).

AUTORITARISMO

Aberta à participação popular em quase tudo o que faz, a Califórnia continua autoritária no que diz respeito aos júris, tanto o de pré-seleção, que elimina 90% das músicas inscritas, como o de classificação, que decide quem vai para o disco, ou seja, que, deste momento musical, terá perenidade. Isso absolutamente não combina com uma promoção que dá entrada franca para mais de cinco mil pessoas assistirem aos sucessos do festival, todas as noites, no palco da Cidade de Lona. Não combina com a definição do próprio presidente da Califórnia, Ricardo Duarte, quando diz que “o papel de cultuar as coisas boas do passado é dos CTGs. A Califórnia não é museu e deve mostrar a cultura nativa como um processo dinâmico, que recebe influências”. Este autoritarismo certamente entrará em pauta no seminário para avaliar a promoção, que a Califórnia realizará em janeiro ou fevereiro.

Devem entrar em debate, também, assuntos como o cenário do teatro onde se realizam as apresentações das músicas. Este ano, todos os conjuntos tocaram ao pé de um logotipo da Ipiranga, patrocinadora do evento, que pagou 3,5 milhões de cruzeiros por esta inserção, no estilo do merchandising das novelas da Rede Globo. Moderno, o cenário provocou discussões acaloradas entre o público. Com isso, cumpriu sua missão, pois, mais do que produtos acabados, a Califórnia deve apresentar temas para debate. Daí surgem conceitos culturais, consensos novos, posicionamentos.

A diferença entre as inserções publicitárias nos cenários de novela e no da Califórnia é que, em Uruguaiana, a vontade popular pode fazer com que elas não mais aconteçam. Contra a Globo, pouco adiante discutir. Os dados culturais são jogados sobre o telespectador a quem resta apenas ligar ou desligar o seu televisora. Neste sentido, é inviável comparar a Califórnia com um MPB-Shell. Com vantagem para os gaúchos.

(Texto publicado no  jornal O Interior, em dezembro de 1982)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *