Ivaldo Roque e Talo Pereyra

Ivaldo 001

nova talo_pereyra

O anúncio e o conselho chegaram de repente e juntos:

– Vem morar com a gente um cara chamado Ivaldo Roque. É músico dos grandes. Acho que deves mostrar teus versos pra ele.

O autor da notícia e do conselho era Paulo Roberto Maciel, um dos mais talentosos jornalistas e, acima disso, uma das pessoas mais generosas com quem convivi, primeiro em Pelotas e depois em Porto Alegre. Ele alugava uma casa antiga e pequena na rua Baronesa do Gravataí, bairro Cidade Baixa, e improvisara um quartinho pra me abrigar no início de 1978, quando cheguei de Pelotas, e novamente em 79, quando voltei de uma primeira e brevíssima temporada em Brasília.

A referência aos meus versos era quase uma invenção de Paulo Maciel. Eu não tinha verso nenhum. Até escrevia, muito eventualmente, mas não guardava e nem mostrava. Ele sabia desses exercícios porque, ao passar pelo quartinho e me ver rabiscando, uma vez perguntou o que eu escrevia. Nem então e nem depois, até onde sei, leu qualquer verso meu. Desconfio de que pretendeu me animar e, sobretudo, me desafiar, ao jeito dele.

Eu jamais ouvira falar em Ivaldo Roque.

Isso era parte da minha ignorância absoluta sobre a produção de música no Rio Grande do Sul naquele momento e nos 10 ou 11 anos anteriores. Minha mais recente referência sobre música produzida no estado era, no início do segundo semestre de 1979, um LP lançado em 1968 – “Tropa Amarga”, com Luiz Menezes e Darcy Fagundes.

Na infância e no início da adolescência, em Santa Vitória do Palmar, eu conhecera grande parte do repertório gauchesco. Ouvira Irmãos Bertussi, Três Xirus, Dupla Mirim, Conjunto Farroupilha, Araganos, Teixeirinha e Mary Terezinha, Tiaraju, Ademar Silva, José Mendes… Admirava os trovadores – Portela Delavi e Luís Muller, entre outros. Mas as canções que me encantavam eram as de Luiz Menezes. As românticas, de preferência. Se não fosse para ouvir alguma canção de Luiz Menezes no toca-discos ou no rádio, eu preferia ler Jaime Caetano Braun, Apparício Silva Rillo, Lauro Rodrigues, Vargas Neto, Aureliano de Figueiredo Pinto e meu conterrâneo Vaterloo Camejo.

Levando em conta todo o vasto cancioneiro gauchesco que ouvi até pouco antes dos 14 anos, “Tropa Amarga” era a síntese do que, essencialmente, me comovia: canções de Luiz Menezes cantadas por ele (duas compostas em parceria com o poeta e folclorista Antonio Augusto, um dos 11 irmãos de Darcy Fagundes) e poemas de Luiz Menezes declamados por Darcy.

Fora do ambiente musical gauchesco havia, desde 1965, o “iê-iê-iê” da “jovem guarda” e os festivais de “música popular brasileira” promovidos em São Paulo pela TV Excelsior e, principalmente, pela Record.

No fim de 67, embora apresentasse um programa regionalista na Rádio Cultura, o “Rodeio dos Palmares”, eu ouvia bem mais “iê-iê-iê” – sob influência de minhas irmãs e primas – e “MPB”.

NA TUPANCI, ALVORADA E DISCOTECA

A partir do início de 68, quando minha família se mudou para Pelotas, e por toda a década seguinte, eu, a rigor, não acompanhei a produção musical do Rio Grande do Sul. Ouvi, no entanto, quase tudo o que fora gravado até então e o que era gravado em São Paulo e no Rio.

Minha escola foi a Rádio Tupanci, onde entrei em 1971 ou 1972 para apresentar “Alvorada nos Pampas” – programa tradicional e de audiência impressionante em Pelotas e outros municípios do sul gaúcho. De segunda a sexta-feira, “Alvorada nos Pampas” abria a programação às 5h45 e se estendia até 8h00 com músicas, um toque insistente de despertador, canto de galo, latidos e mugidos, serviço de correio e avisos de utilidade pública.

Recomendado por minha irmã Edrocy e contratado pelo criador do programa que alugava o espaço da rádio, Rubens Lisboa, eu não tinha vínculo com a Tupanci, mas fui muito bem tratado lá.

Paulo Mancini, pessoa extremamente generosa que era responsável pela programação musical, me deu livre acesso à discoteca e, em conversas intermináveis, me ensinou tudo o que eu não aprendia sozinho sobre música popular. Além disso, a Tupanci transmitia nas noites de domingo um programa chamado “Bons tempos aqueles”. Apresentado por Franco Barreto, exibia um repertório monumental de músicas brasileiras gravadas até meados da década de 50. Eu ouvia e gravava o programa. Depois, passava para um caderno os versos de que mais gostava – de Dorival Caymmi, Humberto Teixeira, Orestes Barbosa, Ataulfo Alves, Lamartine Babo, Ary Barroso, Assis Valente…

Dos dois últimos anos 60 até os últimos 70, portanto, eu acumulara um nível razoável de conhecimento sobre a produção musical brasileira de qualquer tempo. Se tivesse adquirido também um mínimo de conhecimento sobre a produção musical do estado no mesmo período, necessariamente saberia de Ivaldo Roque quando Paulo Maciel sugeriu que me candidatasse a uma parceria que eu, absorvido por inteiro pelo jornalismo esportivo na Rádio Gaúcha, não cogitava e menos ainda procurava.

O GÊNIO E O IGNORANTE

De fato, só alguém completamente alienado do ambiente musical no estado e em Porto Alegre – como era o meu caso – ignorava Ivaldo. Porque ele, então aos 40 anos, era reconhecido há quase 20 como artista genial e alcançara posição de altíssimo relevo na história da música do Rio Grande do Sul.

Evidenciam isso plenamente os depoimentos de inúmeros – e grandes – artistas com quem conviveu; evidenciam ainda os relatos e comentários publicados em 2002 na coleção CEEE/Som do Sul pelo músico, compositor e escritor Henrique Mann e pelo jornalista e crítico musical Gilmar Eitelvein (íntegra deste texto na seção Outras prosas). E reafirma também a genialidade e a importância de Ivaldo um artigo encomendado em 1996 pelo Instituto Estadual de Música ao jornalista e crítico musical Juarez Fonseca. Seria incluído numa publicação que homenagearia Ivaldo, 10 anos após a morte dele, mas permaneceu inédito porque o projeto ficou inconcluso.

Inédito até agora. Liberado por Juarez para este blog, já no título o artigo avisava – e creio que, 20 anos depois, ainda avisa – que “Ivaldo ainda é o que há de novo” (leia íntegra na seção Outras Prosas)

Não tenho certeza sobre quanto tempo Ivaldo e eu habitamos o mesmo endereço. Mas lembro que morávamos em turnos diferentes. Raríssimas vezes nos encontramos lá. Ivaldo nunca tocou violão naquela casa. E eu não escrevi nenhum verso naquele período.

Foi depois que Ivaldo saiu da Baronesa que levei alguns versos pra ele.

E foi numa madrugada de novembro ou dezembro de 1979 que tive a primeira notícia sobre nossa parceria.

DOIS PARCEIROS

Eu editava programas de esportes na Gaúcha, inclusive um que era transmitido antes das 8h, e em muitas noites dormia no pequeno sofá de uma das salas do departamento que Ruy Carlos Ostermann comandava. Preparava o programa durante a madrugada, ouvia alguns discos num dos estúdios secundários da rádio e desabava no sofazinho pra dormir. Logo ao acordar, folheava Zero Hora.

Foi pelo jornal que eu soube que “Canto da roda”, uma das raríssimas letras a que dei título, estava entre as músicas selecionadas para a 9ª Califórnia da Canção; e soube também que tinha mais um parceiro: Talo Pereyra.

Eu não conhecia a Califórnia e também não conhecia Talo, o que reafirmava minha ignorância sobre o ambiente musical do Rio Grande do Sul.

Argentino de La Plata, Raul Eduardo Pereyra estava refugiado em Porto Alegre desde março de 1976. Chegara poucos dias depois do golpe militar que levara o general Jorge Rafael Videla ao comando da mais recente ditadura argentina.

Nos três anos seguintes, Talo se tornou no Rio Grande do Sul um renomado, respeitado, premiado e aplaudido músico, compositor e intérprete – das próprias obras e do repertório do argentino Yupanqui, dos chilenos Violeta Parra e Victor Jara, do uruguaio Alfredo Zitarrosa…

Criara com seu conterrâneo Martin Coplas o grupo Cantares; vencera uma das edições da Califórnia da Canção (com “Leão do Caverá”, versos de Gilberto Carvalho e interpretação de Leopoldo Rassier); formara e mantinha parceria com o excepcional poeta e payador Jaime Caetano Braun; acumulava temporadas de enorme sucesso no Teatro de Câmara e no Teatro Renascença, de Porto Alegre; acumulava também aplausos de públicos de bares, festivais, faculdades e sindicatos; e fora convidado por Ivaldo Roque a iniciar parceria.

Talo conta:

“Ivaldo tocava com Plauto Cruz e Joao Pernambuco no bar ‘Vinha d´alho’, que eu frequentava. Um dia fui contratado para fazer um show lá. Depois do show, Ivaldo me chamou e convidou pra almoçar no apartamento em que morava, na Praça Garibaldi. Fui. E foi lá que ele me disse que era compositor e que, vendo meu show, tinha lhe ocorrido que, se fosse possível combinar o toque castelhano da mão direita (rasguidos de chacarera e outros ritmos argentinos) com os acordes da mão esquerda brasileira (samba, bossa, chorinho) poderia ficar algo interessante e novo. O terreno onde se daria a tal combinação eram as letras de um amigo dele, jornalista em ZH. Puxou então de uma gaveta uns papéis com letras de um tal Robson Barenho, e ficamos compondo horas a fio. Nesse primeiro encontro compusemos ‘Canto da roda’ e ‘Liberando’. Nessa ordem.”

De tudo isso eu não sabia nada naquela manhã de 1979 em que descobri “Canto da roda” no principal festival de música do Rio Grande do Sul – e sem meu nome entre os autores, por conta de um problema qualquer na hora da inscrição.

Alguns sábados depois, Ivaldo e eu embarcamos no “trem de prata” que partia de Porto Alegre à noite e chegava perto das 7h a Uruguaiana. Ivaldo conhecia bem todos os outros parceiros naquela jornada: Raul Ellwanger e Nana (intérpretes), Zé Gomes (rabeca) e Toneco da Costa (violão). Eu só conhecia Toneco, de alguns encontros em Pelotas, onde tínhamos amigas comuns.

Meia hora após desembarcarmos na estação de Uruguaiana, Ivaldo acordou Talo e nos disse: “Este é o Talo; este é o Robson”.

Nos cinco anos seguintes construímos um repertório, voltamos a nos reunir em dois festivais (em Torres e Veranópolis), nos vimos poucas vezes mais, uma delas em Laguna – e não providenciamos nenhuma fotografia. Ficaram, como “Canto da roda”, “Passarada”, “Liberando”, “Amor bandoleiro”, “Pequenos anúncios”, “Quando o piá for peão”, “A ronda do peão”…

Em 1992, ao apresentar “Romances de cafundós”, um livro de versos que editei em Brasília com a ajuda decisiva de Lúcia Leão, minha colega no Globo, reverenciei Ivaldo e Talo:

“(…) Não haveria estes versos sem a generosidade extraordinária, o talento criador e a ousadia artística de meus dois parceiros. (…) Quase tudo o que está escrito, escrevi porque Ivaldo primeiro e Talo sempre me estimularam a produzir (…)”. 

Talo e eu chegamos a 36 anos de parceria em 2015. Mas Ivaldo Roque nos deixou em 7 de abril de 1986, menos de 7 anos depois de nos conhecermos, menos de 6 anos depois da estreia de nossa parceria, dois meses depois de completar 47 anos e 15 dias antes de que eu completasse 32.

‘TRAJETÓRIA DE UMA LUZ”

Em 1996, passados 10 anos da morte de Ivaldo, o Instituto Estadual de Música me convidou a escrever para uma publicação que lhe renderia homenagem. Escrevi:

De qualquer personagem que se afaste ou que seja afastado de nosso convívio, o que costumamos dizer, quase instintivamente, é que deixou uma história e uma obra. Depois saem por aí pesquisadores e biógrafos a catar pedações de história e obra, a seguir rastros, a refazer cada passo, cada gesto, cada silêncio, cada palavra, cada momento e todos os momentos de seus pesquisados e biografados.

Agora o Instituto Estadual de Música me informa que está pesquisando e vai contar a vida e obra de Ivaldo Roque. Eis aí um desafio muito incomum. Porque uma coisa é investigar a vida e a obra de um homem, de um artista, enfim, de uma pessoa. Muito diferente é contar a trajetória de uma luz que talvez até se saiba por onde andou, mas não se sabe de onde veio e nem para onde foi. Ivaldo Roque, lhes garanto, é uma luz.

Há quem diga e quem testemunhe que Ivaldo nasceu e morreu em Laguna. Mas eu não creio que Ivaldo tenha nascido em terra alguma e muito menos tenha morrido em algum lugar. Minha crença é a de que ele se acendeu onde minha imaginação não alcança e continua aceso em algum concreto limite de minha sensibilidade. É onde nos encontramos.

Em Laguna, é verdade, uma porção de terra cobre o que resta do corpo de um homem de estatura mediana, cara redonda, carapinha esbranquiçada e barriga saliente de preguiça, cachaça e peixe. Esses eram traços de Ivaldo, mas seguramente não é Ivaldo quem está lá. Porque não há em Laguna, não há em Santa Catarina e em lugar algum existe cova suficientemente larga para prendê-lo e terra bastante para cobrí-lo.

Não sei quem pôs em Ivaldo o apelido de Pássaro, mas foi quem melhor o traduziu e quase o retratou por completo.

Ivaldo nunca me perguntou coisa alguma. Nem eu lhe perguntei. Nos dispensávamos disso. Não sei se fomos amigos nem me lembro de que tenhamos disso daqueles confidentes que vivem consumindo tempo a falar. Também disso nos dispensávamos. Eu lhe mandava ou lhe entregava letras, e ele e Talo punham músicas sobre os versos. Quando nos víamos, nos encontrávamos, confraternizávamos.

Hoje, sem culpa ou constrangimento, estou levando aos meus arquivos um questionário de onze itens em que o Instituto de Música me pergunta detalhes sobre a vida e a obra de Ivaldo. Eu não sei responder. O que sei de Ivaldo é o que o questionário não pergunta. Sei é da claridade, do brilho e da generosidade de uma luz chamada Ivaldo. Eu sei do contágio de sua música. E da magia de sua presença.

Como é pássaro de luz sem pouso certo, às vezes me angustia quando arriba e me leva o verso. Fico perdido. E se demora a voltar, sigo caminho. Pé na estrada, alcanço Laguna, olho os lampiões sobre o mar, digo “saudade, parceiro”, espero o dia e vou em frente. Não demora, me reencontra a poesia. Iluminada de Ivaldo. 

Em 29 de junho de 2004, o prefeito João Verle sancionou a lei nº 9.518. Aprovada pela Câmara de Vereadores de Porto Alegre, dá o nome de Ivaldo Roque ao “logradouro público não cadastrado, conhecido como Rua 7902, localizado no Loteamento Chapéu do Sol”.

4 opiniões sobre “Ivaldo Roque e Talo Pereyra”

  1. oi mano, a mãe tá aqui comigo e pediu pra ver o teu blog, mostrei tudo, estamos impressionadas com a tua memória, como lembras de tudo nos mínimos detalhes, contas passagens desde a infância. É maravilhoso ter uma história de vida pra contar e tu fizeste a tua, linda história. Apesar de não estar contigo tinha o pai que em todos os festivais que participavas ficava ouvindo no rádio e me chamava pra ouvir, orgulhoso, faceiro, o primeiro lugar com “Brasilhana” e a cada festival uma música no disco. Tenho muito orgulho quando perguntam qual meu parentesco contigo e digo que sou tua irmã. És um profissional respeitado, sério, verdadeiro. Parabéns por tudo que conseguiste na tua vida, honestamente e com louros, continua escrevendo meu irmão não podemos deixar de ler teus versos, grande bjo meu e da mãe, somos tuas fãs nº 1

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *