Trova peregrina

Às senhoras e aos senhores,
nutridos de almoço e janta,
sirvo agora voz e versos
que a alma impõe à garganta
como a vida exige sonhos
ao trabalhador que canta.

O trabalhador que canta,
mesmo com peito estropiado,
espalha por toda a pátria,
sob o lábaro estrelado,
que, apesar de haver quem negue,
povo é povo, gado é gado.

Povo é povo, gado é gado
(faz falta que se repita,
como a luz do sol faz falta
pra ver-se a Terra bonita,
a lua em cor de ouro ou prata
e o céu em que se acredita).

O céu em que se acredita
é tal e qual imagina
a gente que sabe ao certo
a quê a vida se destina
– como não ousa o cantor
desta trova peregrina.

Esta trova peregrina
não sacia o esfomeado
nem abranda frio e sede
nem ampara o desgraçado,
mas lembra, de praça em praça:
povo é povo, gado é gado.

Fantasias

Domingo fecha a revista
das aflições de outros dias.
Acordo com fantasias
do meu ofício de artista,
como um poema em fatias
e logo saio a passeio.
O amante que ainda não veio
me serve de companhia.

Vamos ao fim da manhã,
depois embarco sozinha
num meteoro da linha
Saturno-Rio Camaquã,
retorno entre flamboyants,
gatos e cães das vizinhas.
Sou a primeira rainha
com alma de cidadã.

Desfilo em três passarelas
enquanto Gisele ensaia;
eleita deusa da praia,
monto meu palco em favelas;

por fim, me deito no parque
e, se me sinto vigiada,
pinto na cara do guarda,
olhos de chico buarque

Boleros e fados

Os desamparos do amor
me deixam tão transtornado
que eu anarquizo o carteado
(canto flor e contra-flor)
até que alguém, por favor,
cale os boleros e os fados.

As cicatrizes do amor
eu sinto e trato sozinho
em bebedeiras de vinho
e em lágrimas sem pudor.

O amor que me felicita
volta entre março e agosto;
às vezes, tem outro rosto
ou traz o mesmo, mas pinta.

A história do meu amor
é obra de cinco autoras:
a que incendiava lavouras
enquanto dançava nua;
quem me olhou no olho da rua
e a rainha sem coroa
e a virgem das três lagoas
e a que não disse: “sou tua”.

 

Pra depois dos carnavais

O povo de quem sou filho
me ensinou, pra vida inteira:
não tem mar ou cordilheira
que detenha um andarilho;
com certeza, existe exílio,
mas não há terra estrangeira.

O povo dos meus iguais
sova o pão de cada dia
fabricando fantasias
pra depois dos carnavais.

O povo de quem sou parte
ninguém dobra ou silencia;
e se a aurora se extravia
num apagão de obras de arte,
povaréu porta-estandarte
toma as ruas e alumia.

O povo dos meus iguais
sova o pão de cada dia
fabricando fantasias
pra depois dos carnavais.

O povo que me pariu,
num abril de outono pleno,
alardeou: mais um moreno;
previu: menos um servil.

O povo dos meus iguais
sova o pão de cada dia
fabricando fantasias
pra depois dos carnavais.

 

Tango feliz

CAPA ROMANCES DE CAFUNDOS 001

(de Romances da Cafundós / 1992)

Meu olhar não tem mais
a amargura dos tangos
e, verás, nem meu tango é triste mais.
Se é por jóias que esperas,
ganharás primaveras,
pérolas e diamantes,
rubís e corais

e terás noutras pedras
portuárias, de cais,
um bailado de pássaros e sóis,
fogos contrabandeados
de olhos de namorados,
vinhos, brilhos de luas,
estrelas, faróis.

O olhar de marujo
que ao porto se exibe
foi da pampa ao mar do Caribe
e voltou porque quis.
Veio primaveril e lhe basta,
veio com pedrarias de festa,
veio por teu amor e, se gostas,
te dá um tango feliz.

Sonhadores

capa 23 musicanto

(com Leonardo Ribeiro)
Intérprete: Leonardo Ribeiro no CD 23º Musicanto / 2009

Casas como nós – moradas claras;
ao redor de nós, festas e risos…
Venha vida, mesmo imaginária,
rumo a céu nenhum nem paraíso;
mesmo se acabarmos feito os índios
guarani, aymará…

Água, selva, campo e cordilheira
beiram as aldeias, as cidades
onde os povos de osso e sonho e carne
somos nós.

Vibra, vida, teus carnavais!
Venta, planta, brota mais!

Nada fere e dói além de um dia;
lar aberto, a terra é nosso reino…
Venha vida, mesmo em fantasia
que faça do último, o primeiro,
como nenhum pobre, branco ou negro,
nunca foi, mas será.

Entre o que há de vir e bruta história
vivem, do Caribe à Patagônia,
povos de uma estirpe que ainda sonha.
Somos nós.

Vibra, vida, teus carnavais!
Venta, planta, brota mais!

Trem das sete

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(com Talo Pereyra)
Intérprete: Glória Oliveira no LP 7ª Ciranda Musical / 1984

Eu cheguei no trem das sete,
que mistura óleo e poesia.
Trouxe um canto que reflete
meu pago, minha utopia,
ou fere, qual canivete.

Lá nos confins de onde sou
não há quem mande sozinho,
não há quem decida nada
contrário ao bem dos vizinhos.
Ninguém se queixa pra o padre
nem aos outros desagrada.
E há um pelotão da Brigada
que vive na ociosidade.

Vi caminhões pela estrada,
rumo a Rondônia ou Goiás.
Em vez de trigo ou boiada
levam Tonicos, Inás
que, tendo terra nenhuma,
mas planos, braços e pás,
seguem vento que perfuma
lutas que a vida refaz.

Decerto, chegam um dia
lá onde a angústia termina,
lá onde a terra sacia
a fome que aqui germina.

Decerto, chegam um dia,
nos campos, praças, esquinas,
lá onde se refugia
o meu amor por Cristina

Vício de sonhar

(com Talo Pereyra)

Eu imagino que viver feliz
seja o revés, seja o revés
de não semear as plantas dos meus pés
em todos palcos de cada país.

A flor e sol, a leite e mel
eu alimento o vício de sonhar
que assim na terra como no céu
nos sobra, enfim, um baile popular.

Eu canto aos ventos pra que minha voz,
cidade afora, campos afora,
sossegue a dor e o drama de quem chora
e alegre os dias dos que marcham sós.

A qualquer hora, se me deixa a paz
e falta luz e falta luz,
me acodem músicas que não compus,
me afaga um par – e eu canto e danço mais.

Vento sul

capa 8o Grito do Nativismo

(com Talo Pereyra)
Intérprete: Neto Fagundes no LP 8º Grito do Nativismo Gaúcho / 1994 e LP Retrospectiva do Grito do Nativismo / 1996

Vento sul anda em folia!
Parece o meu coração
festeiro de noite e dia
desde que o amor, com Luzia,
desembarcou na estação.

Veio do sol ou então
das veias da maresia
onde ela me beijaria
e um beija-flor – por que não?-
de ciúme improvisaria
canções ao vento folião.

Vento sul anda em folia!
Me lembra Anita,
a lendária das terras que não possuía
mas, com os seus, dividia
plantando a reforma agrária
por chão de pães e poesia
onde ela produziria também o amor,
grão por grão,
e quando em cio – por que não?-
vento vadio em folia.

Bailar com esse vento vão
mulheres de poesia e pão,
mulheres de roçados, vilarejos, capitais.
Mas esse par é como um peão
latino americano ou não;
é como peão sem pago
que se vai, se vai, se vai.

Ventania

O dia levantou cedo
– eu acho que não dormiu.
Foi seduzido por Pedro
e o delirante assobio
de descobrir horizontes
quando a noite cobre o rio.

O Pedro é como um vigia,
com olhos postos ao longe
pra ver se o amanhã vem hoje
com luz e cor de alegria.
Então, quando um dia foge,
por outro, Pedro assobia.

Nas noites de lua ausente
em que a vida se desfia
e o rio não segue a corrente
nem volta aonde principia,
assobio de ventania
anima cada casebre,
como a explosão de uma febre,
antecipando outro dia