DOS ARQUIVOS IMPLACÁVEIS

Juarez Fonseca
@ Depois de um bom tempo, Talo Pereyra e Robson Barenho ressurgiram marcando presença na 36ª Coxilha Nativista, de Cruz Alta, que já foi um dos principais festivais do Estado e há anos andava atolado na mesmice. A música de Talo e Robson, “Eis-me Aqui”, não tem sequer uma palavra de jargão regionalista, é universal, e sua premiação traz a Coxilha de volta à atenção. Talo e Robson provam, desde o início de seu trabalho, nos anos 1980, que nosso regionalismo pode e deve ser universal. Na Coxilha, sua música ficou em segundo lugar, ganhou o prêmio de melhor letra e deu a Talo, com sotaque e tudo, o troféu de melhor intérprete. Cresce a Coxilha no meu conceito – e lá nos anos 80 fui duas vezes jurado. Mas Talo e Robson: posto aqui um recorte de outra vitória deles, em 1987.
JUAREZ DEZ LUAS

 

Homem

Ayrton Centeno

Carnaval Pelotas 1978 - Foto de Ayrton Centeno (1)

Do homem nem eu nem ninguém lembra direito nem por que fez do jeito que fez. Vez que outra paro pra pensar nisso e empaco. Nem sei que rumo tomou depois daquilo. Nem vejo sua cara. Penso nele sempre como um vulto caminhando na frente, a gente seguindo do lado ou atrás, sem falar muito ou muito menos cantar ou batucar, só andando quietos ou quase. O engraçado é que a lembrança vem sempre antes da porrada. Vem antes até do tiro. Lembro de outras coisas que já lhe conto, mas a porrada vem primeiro. Abre a recordação, puxando a coisa toda. Como pra avisar: não lembra de novo senão tu vai apanhar outra vez, imundície.  Mas não tem jeito. Cabeça não tem controle nem quer não quer nesses causos de memória. O negócio vem vindo, vem vindo e já veio: recomeça o mesmo filme e a mesma porrada. E não é a segunda, a terceira e as outras que perdi a conta. É a prima. É aquela em que eu tava na segunda mesa do Gago, as costas pra porta, olhando o rótulo da Serramalte, que eu tinha descolado e brincava com o papel gosmento e pensava na dor das minhas pernas aquela hora da madrugada. Veio da esquerda pra direita e de baixo pra cima. Me pegou assim como um planchaço, de través. Quanto senti o choque na paleta, as caras do Beto Cavaquinho e do Zé das Pancas, sentados ali, sacudiram de olho arregalado, aquelas bochas, ali na minha frente. Besteira, quem sacudiu fui eu mesmo. Senti a borracha chupando a carne das costelas. Depois, desabou o temporal de cassetete, pontapé e manotaço. Mal e mal deu pra sair engatinhando pra porta do bar, de vereda por entre os coturnos, levando chute na boca do estômago, nos rins e onde pegasse. Ouvi a gritaria dos outros atrás, todos procurando a porta. A voz rouca do Biriba da Juraci, que vinha tropicando pro mesmo lado agarrado no estandarte. Mas o que lembro mesmo, forte, é da primeira.

Faltava uma semana pro Carnaval quando o Diário de Esperança publicou a nota “Tríduo de Momo será mais curto”. Informava que o senhor prefeito havia baixado decreto estabelecendo que “as tradicionais folias burlescas terão sua duração reduzida de sete para quatro dias”. A medida visava colocar os costumes de Esperança em consonância com o que ocorria no restante do país, uma vez que, nas demais cidades, os folguedos não iam além da terça-feira. A determinação tinha origem na reivindicação das classes empresariais no sentido de reduzir o absenteísmo, aumentar a produção e a produtividade e, de tal modo, a competitividade da indústria e do comércio locais, colocando-a em patamar mais adequado. O mesmo assunto era abordado no editorial. Que apoiava a iniciativa com a observação de que “embora seja recomendável brincar sadiamente”, a sociedade não podia mais tolerar “oito dias de paralisação do sistema produtivo subjugado por um hedonismo irracional”.

Quando meti a cara na rua, senti os pingos batendo na testa e escorrendo pelo nariz e o queixo. Caíam como um chorrio, misturando o sangue que manava do lanhaço perto da sobrancelha com o ruge da maquiagem. Os outros já estavam por ali, atordoados, sentados ou jogados na sarjeta, ou vinham ainda pela mesma porta abaixo de chapoletadas. Biscuí, o viadão, foi o último a sair ou ser saído. Vai antes que eu te enfie uma mangueira no rabo pra curar tua comichão, coisa nojenta, falou o brigadiano meio gordo que atirou o bichona na calçada, com as bananas do chapéu em formato de abacaxi todas despentelhadas.

Cuidado com essa coisa nojenta que tu tá falando aí que isso pega hein, debochou outro PM.

O gordinho ficou puto mas não disse nada. Em vez de dar um esporro no outro, virou pra gente e mandou dispersar.

Passou da meia-noite, é quarta, terminou a terça e a festa também. Vão pra casa. Não quero ninguém fantasiado na rua dentro de meia hora. Depois é problema, avisou com os pingos pinicando no capacete na frente do letreiro de neon que dizia Gago, aberto 24 horas. Foi quando o Biriba resolveu abrir a boca.

Porra, o bloco nem desfilou, a gente tava no aquecimento. Na ordem do desfile, tem dois ainda antes de nós. Não temo culpa que o negócio atrasou.

Cala a boca, sarará de merda. Vai desfilar é na delegacia antes dos presos te comerem esse cu sujo, ameaçou o gordinho.

Disse isso e acertou um golpe nos cornos do Biriba que caiu em cima do estandarte. A vontade que todo mundo teve na hora foi de amarrar o gordo num trilho de trem e passar com uma locomotiva por cima da cabeça dele e ficar vendo a merda esguichar. No encagaçamento meio geral era só isso: vontade. Brontossauro, de havaiana, ajudou o Biriba a se levantar e o Camusso, que era uma das princesas, prometeu tá bom vamos indo não precisa prender.

Biriba levantou muito emputecido e queria se botar no gordo filha da puta. Camusso chamou ele prum canto, trovou e trovou, enquanto Biriba, de nenezão, com uma touca cor-de-rosa e chupeta dependurada no pescoço, sacudia a cabeça dum lado pro outro e resmungava. O resto foi indo em direção à parada do ônibus devagar, com os vestidos das irmãs pingando água, uns escorados nos outros, lambendo as feridas, o Beto com o cavaquinho debaixo do braço. Biriba foi o último a se juntar, com o estandarte no ombro como uma trouxa. E parecia que ia ser assim mesmo a tava bem.

Aqui, Rádio Esperança – Do adulto à criança, a emissora que tem a sua confiança – programa Carnaval Total. Interrompemos nossos prognósticos sobre quem vencerá o concurso das escolas de samba do primeiro grupo para uma intervenção da nossa reportagem sob o patrocínio do xarope Limão do Norte. Fala Jota Cê, o repórter que tudo vê!

Obrigado, Barradas. Estamos aqui na igreja de São Tomé das Promessas onde houve um tumulto. Um grupo não-identificado, com indumentária de foliões, ocupou o templo e estaria exigindo um resgate pelo pároco. Colhemos também informações junto

a fontes da área policial-militar de que os referidos indivíduos possuiriam bananas de dinamite e desta forma poderiam usar os explosivos para explodir o centenário prédio no caso de uma ação para desalojá-los…Mas temos a satisfação de contarmos nesse momento com o tenente Giordani que muito gentilmente se dispôs a atender nossa reportagem. Tenente, o microfone é seu para os esclarecimentos necessários.

Antes de mais nada o meu cordial boa noite para todos os radiouvintes. O fato é que alguns elementos invadiu a sacristia a mantém o padre como refém, negando-se a deixar o recinto. Mas estamos solicitando reforços e acreditamos que em pouco tempo o problema estará superado.

Obrigado, tenente. O tenente, viu Barradas, não confirma a existência de dinamite em poder dos rebeldes. Mas correm rumores que seriam coquetéis molotov…Sempre a primeira a chegar ao local onde o fato acontece, a Esperança voltará a qualquer instante para acompanhar os acontecimentos. É com você, Barradas.

Ia ser mas não foi por causa da pedra. Da pedra em que bateu o pé do Biriba. Tão injuriado ia que nem viu a saliência, tropeçou e se estrepou no meio da rua. Levantou-se com dificuldade, atrapalhado com o estandarte azul e amarelo e ouviu a gaitada. O PM gordo chegou a se agachar para afrouxar a pança e rir melhor. Vai pra casa pé-de-cana! Os outros riam junto. Biriba olhou pra gente que também tinha estacado, olhou de novo pros brigadianos. Olhou pra mim e eu gelei. Antes ser pé-de-cana do que pé-de-porco! E mais: não vamos pra casa porra nenhuma. Só depois de desfilar, disse fazendo uma meia-volta com o estandarte enxovalhado. Olhei pro céu pra confirmar o pressentimento de que ia chover merda.

Nova Rádio Princesa falando diretamente do teatro de operações. E trazendo informações, em primeiríssima mão, sobre o movimento revoltoso anticristão que realizou assalto espetacular nesta madrugada apossando-se da igreja.  Através de contatos com moradores próximos foi possível apurar que ao longo desta verdadeira noite de terror ouviram-se muitos gritos (Gritos, Jorcelei?). Sim, exatamente, Pedreira Junior, gritos no meio da noite (Que barbaridade, Jorcelei, gritos no meio da noite!) Precisamente, Pedreira. E, além disso, batuque, o que fez alguns vizinhos interpretarem as manifestações como parte de um ritual satânico (Onde vamos parar, Jorcelei? O que é isso? Um ritual de satanismo? Estavam chamando o demônio para o interior da casa de Deus, Jorcelei!) Veja só, Pedreira: um morador, que compreensivelmente não quis se identificar mas que mostrou estar muito bem informado sobre a movimentação dentro do templo, sustenta que os elementos teriam violado imagens sacras, após grosso consumo de maconha e álcool (Eu me recuso a acreditar, Jorcelei! Violações e drogas? Não, não, não! O que fazem as autoridades?)

Quando estourou a boiada, o primeiro pensamente que tive foi: que vontade de matar o Biriba.  A vontade ficou mais forte quando eu, que tinha sido o primeiro a disparar, fiquei pra trás por causa do salto alto e vi o Biriba, que era o último mas tava de tênis, passar correndo por mim.

Barradas, estamos em contato telefônico agora com um dos indivíduos que está na sacristia. Pode seguir, Jota. Qual é o seu nome e o que querem? Eu sou o Ubirajara dos Santos mas me chamam Biriba da Juraci por causa da minha velha que é mãe-de-santo. A gente é o Bloco Recreativo Pudim de Canha e não quer apanhar. Só desfilar antes de ir pra casa.

Como está o padre? Podemos falar com ele?

O padre está bem e não quer falar. Quando ele quiser, ele fala, meu camarada.

A situação é essa, Barradas. O tenente Giordani está aqui ao nosso lado mas ele não quis prestar novas declarações.

Tá vendo a cicatriz? A barriga da perna foi atravessada mas os anos foram trabalhando e trabalhando e fechando o buraco.  O tiro entrou enviesado e saiu do outro lado. Mas livrou o osso, pegou só no mocotó.  Hoje quase não se nota o estrago. Foi que nem na noite da turumbamba. Parecia que tinham me atirado um cascote, coisa assim, doeu um pouco mas continuei correndo que eles vinham que-te-pego-que-te-largo atrás. Só vi a sangueira depois de pular a grade da igreja. Aí me borrei todo, comecei a sentir uma dor fodida, gritei pra caralho, e só não desmaiei por que o Biriba me amarrou uma baixeira no local, que ajudou a estancar o sangue e tomei uns goles de vinho de missa.  Ficou aquele negócio de leva-não-leva pro hospital, aquele lero, até que o Biriba perguntou se dava pra segurar e se desse eu não ia sair a não ser com o resto e desfilando mesmo a pé. Não sei pelo vinho ou pela raiva ou pelos dois juntos eu falei que dava. Ele se abaixou, olhou pros lados e me deu uma cutucada de leve com o cotovelo. Como é que vamos sair pra rua sem a rainha do Pudim de Canha? Disse ajeitando a faixa onde estava escrito isso. Olhei em volta e vi os outros estropiados. Alfinete, o quase-anão careca que era o doutor Silvana, o cientista louco do Capitão Marvel, tinha perdido os óculos fundo de garrafa e tava ali esfarrapado, todo mijado e meio cego deitado no banco perto da pia de batismo. Zé das Pancas tinha deixado o tule e as pregas de Mata Hari na grade e tinha a bunda de fora. Cabungo, Sidclei e Canguçu tavam de presidiários e pareciam os únicos preparados para a situação.

Um, dois, três, no ar. Estamos completando, seis horas e quinze minutos, quando a claridade avança nesta quarta-feira de cinzas, vinte e quatro horas de transmissão ininterrupta e, de novo, falando aqui das imediações da igreja. Estamos aqui com dona Juraci, mãe do possível cabeça dos rebelados. Dona Juraci, quais as suas impressões sobre este momento dramático que estamos vivendo?

Não vai dar em nada, meu filho.

Como a senhora tem certeza disso, dona Juraci?

Meu filho, eu joguei os búzios e eles só falaram do bem.

A dormência era tanta que quase não sentia o pé quando pisava. Mas fui mesmo assim, apoiado no Beto e no Cadinho. Mas antes que metesse o nariz fora da porta o tempo demorou demais. Foi conversa toda a noite. Primeiro entre o homem e o Biriba e o Camusso, este mais pra segurar o Biriba. Tudo no escuro que a luz tinha sido cortada. Dava pra escutar uns retalhos da prosa que eu naquele febrão nem sabia se era verdade ou viagem…disso não abrimos mão, padre era a voz do Biriba, com o Camusso tentando baixar a bola. O padre sacudia a cabeça e argumentava e argumentava. Dizia o meu nome, o meu caso, o meu ferimento e o Biriba firme. Depois, a conversa ganhou outra sombra. O sujeito veio da rua pra confabular. Primeiro com o padre. Mais tarde, com o Biriba e o Camusso. Os nossos voltaram, disseram alguma coisa pro grupo, o que foi não peguei mas melhorou o ânimo. Clareava já quando o sujeito da rua reapareceu. O tenente voltou, falou Camusso. Ele e Biriba ficaram acompanhando o encontro daquela sombra com o padre. Dessa vez foi mais rápido, quinze ou vinte minutos acho. A sombra se despediu, apertando a mão do padre que caminhou até o grupo e quis saber: estão prontos?

Fala Frazão! OK, Drumond. Voltamos a falar diante da igreja de São Tomé, onde todos estamos vivenciando uma situação de alta tensão e…Atenção, Drumond, parece que algo está acontecendo. A porta lateral se abrindo e o grupo saindo. Daqui é possível divisar que o homem de preto caminha à frente dos demais. O restante deles, entre quinze e vinte, aparentemente estão desarmados. Todos se movem dentro de um círculo formado por uma corda passada em torno deles. Os PMs mantém distância. Deixaram agora o pátio da igreja e se dirigem ao centro da cidade, pelo meio da rua.

Seguimos calados, às vezes espiando de rabo de olho para a calçada, segurando o coração nos cruzamentos. A pressão aliviando a cada quadra vencida. Pouco metros antes da passarela, um tremor. O PM gordo encarou o Biriba do meio-fio e ameaçou um passo na nossa direção. Foi quando o padre levantou o crucifixo que levava junto ao peito bem acima das nossas cabeças. O gordo recolheu o pé mas o padre manteve o crucifixo no ar como se fosse o nosso estandarte.

E assim se fomos, juntos e silenciosos, examinados pelas pessoas que paravam pra ver a nossa passagem, alguns com cara de sim outros com cara de não. Silêncio por fora mas música por dentro da cabeça. A cuíca primeiro, depois o solo do cavaco do Beto, o pandeiro do Bronto, as notas se sucedendo e misturando. O agogô, o tamborim, o surdo, o violão, o som subindo e o bloco andando. Biriba deu uma requebrada com o estandarte, o padre percebeu rápido, ele parou, o padre olhou pro lado, ele gingou de leve e de novo. A gente seguiu assim calmamente, os rostos das pessoas passando devagar e a gente seguindo naquela manhã, um sujeito com o cigarro no canto da boca botou o jornal debaixo do braço e aplaudiu sozinho, uma velhinha fez sinal de positivo, uma mulher de óculos puxou a filha pequena pela mão, a criança sentando pra trás querendo ver, e a gente seguindo, um repórter caminhava do lado anotando coisas, outro levava um microfone e falava ligeiro e se cuspindo, o vendedor de frutas sacudiu a cabeça e puxou um lenço pra assoar o nariz, minha perna latejando um pouco, os rostos das pessoas passando, eu sorrindo lembrando do rebolado do Biriba, os rostos das pessoas passando.

Vandré em 700 páginas

vandre livro

O jornalista mineiro Jorge Fernando dos Santos autografa amanhã, 5, numa livraria de Copacabana, no Rio, a segunda biografia de Geraldo Vandré publicada neste 2015 em que ele chegou aos 80 anos.
Em maio, o escritor Vitor Nuzzi tornou público “Geraldo Vandré – Uma canção interrompida”, com 400 páginas e tiragem de apenas 100 exemplares.
Agora a Geração Editorial banca, de Jorge Fernando, “Vandré – O homem que disse não”. Tem 280 páginas e custará menos de 40 reais.
São, assim, quase 700 páginas de história de um artista singular e de um homem de raríssima personalidade.
Não consegui o livro de Nuzzi; o de Jorge pretendo ler em breve.
Já comprei, mas ainda não comecei a ler outra biografia de artista.
É “Angela Maria – A eterna cantora do Brasil”, obra do pesquisador e escritor Rodrigo Faour que está nas livrarias há duas semanas.
Aos 87 anos, Ângela continua emocionando públicos em shows e discos. Faz isso desde 1951, ou seja, há mais de seis décadas.

Loma, além fronteiras (novembro/1999)

Loma, cantora que estréia em Brasília no próximo dia 10 em curta temporada no Feitiço Mineiro, traz na bagagem para lançamento seu disco Além-fronteiras. No trabalho transparecem iniciativa de grupo, ao mesmo tempo que mostra unidade.

No disco, instrumentistas, poetas, arranjadores e compositores parecem ter trabalhado todos em grupo para um resultado comum em cujo resultado final está a intérprete.  Fazendo um mapeamento de ritmos brasileiros, o disco é maduro, feito com paciência, holístico. Transcende à prateleira dos ‘bem-intencionados’ e vai para a da antologia musical brasileira.  Continue lendo Loma, além fronteiras (novembro/1999)

Brasilhano Talo Pereyra (1986)

A vitória de Brasilhana, no último Musicanto de Santa Rosa, veio premiar o trabalho de uma dupla de compositores que possui um dos trabalhos mais instigantes e completos dentro da música gaúcha de projeção universal. A obra de Talo Pereyra & Robson Barenho ainda vai dar muito o que falar, até porque está sendo reconhecida aos poucos. Enquanto o distinto público ouvinte sai à cata das gravações de Trem das sete, Lambanças de cafundós, Canto da roda, O que me separa, entre outras, entrevistamos Raul Eduardo Pereyra, compositor argentino (e brasileiro de coração), radicado aqui há 10 anos. Uma cabeça lúcida sem preconceitos na arte, e que soube captar, dentro de uma visão ideológica, toda uma problemática que envolve a discussão da democratização dos festivais no Rio Grande do Sul. Continue lendo Brasilhano Talo Pereyra (1986)

Qualidade das músicas dos festivais gaúchos nunca foi tão baixa (agosto/2015)

Juarez Fonseca

Realiza-se neste sábado (15/8) e domingo (16/8), em Santo Antônio da Patrulha, a 29ª Moenda da Canção, um dos poucos festivais gaúchos nunca interrompidos e que se mantém bem. Acompanho os festivais desde o início, como repórter de ZH registrei o auge do movimento, até mais ou menos o final dos anos 1980. Depois as coisas começaram a ficar meio estranhas, com queda geral na qualidade. Além de constatar isso ao integrar comissões de triagem, sigo observando em várias listas de selecionadas que muitas músicas se repetem em festivais diferentes. Em vez de buscar uma canção melhor, o autor reaposta na própria ruindade. Continue lendo Qualidade das músicas dos festivais gaúchos nunca foi tão baixa (agosto/2015)

Ivaldo Roque (2002)

capa som do sul

Gilmar Eitelwein

Ivaldo Roque juntava numa só pessoa o ser catarinense e o ser gaúcho, o músico clássico, o popular, o vanguardista e o jazzman, o sambista de botequim e o professor universitário, o pedreiro e o linotipista dos primeiros anos, quando da chegada a Porto Alegre. Os lugares onde deixou marcada sua obra foram muitos: a construção do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, a gráfica do Correio do Povo, a Faculdade Palestrina de Música, a Escola de Samba Praiana, o restaurante Vinha d’Alho, a Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana… Continue lendo Ivaldo Roque (2002)

Ivaldo é o que ainda há de novo (1996)

capa pentagrama

Juarez Fonseca

Para ganhar a vida, durante um bom tempo Ivaldo Roque lidou com letras, palavras, textos. Não, não era escritor; era linotipista.

“Linotipista?” Que bicho é esse?”

Quem tem menos de 30 anos, de fato, não pode saber. Chamavam-se linotipos as pesadas máquinas de composição com chumbo, usadas em gráficas e jornais antes do advento da composição eletrônica e da impressão pelo sistema off-set. Nos anos 60 e 70, Ivaldo trabalhou nas oficinas da Companhia Jornalística Caldas Junior. Digitando textos do Correio do Povo e da Folha da Tarde, tinha a segurança e um salário razoável no fim do mês.

Pergunta: como um compositor e violonista com o talento, a experiência e a expressão de Ivaldo Roque não conseguiu tirar o sustento familiar da atividade musical?

Resposta: a música nunca deu bom dinheiro para criadores do tipo renascentistas, feito ele. Que além do mais era um distraído, um tímido, um sujeito sem malícia para se promover. Amigos gostam de lembrar que certa vez, em 1960 e poucos, num show coletivo de bossa nova, o apresentador esqueceu de mencionar seu nome e ele, por pura timidez e modéstia, não entrou no palco para integrar o grupo. Continue lendo Ivaldo é o que ainda há de novo (1996)

Romances de cafundós (1992)

blog fogaça 001

José Fogaça

Nas duas últimas décadas, um vento restaurador varreu a cultura gaúcha. Uma geração notável de novos criadores da palavra ocupou os palcos, os galpões, os festivais, o disco e arrebatou a alma popular. Esse movimento produziu, no Rio Grande do Sul, grandes poetas e escritores. Robson Barenho está entre eles.

Letrista de verso ousado e insubmisso, Robson emergiu, no sopro vigoroso do cancioneiro regional, como uma afirmação maiúscula entre as vozes renovadoras do nosso tempo. Seu trabalho esteve presente nos momentos mais marcantes da abundante, criativa e generosa produção cultural desta quadra histórica. Não é despropositado dizer que não será possível compreender o novo brilho e a consistência de linguagem que a canção regional adquiriu nestes últimos anos sem levar em conta a obra peculiar que Robson Barenho, como letrista, compositor e poeta tem nos deixado. Continue lendo Romances de cafundós (1992)

Um bochincho cultural muito criativo: a XII Califórnia (1982)

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Luiz Fernando Vals

   Discutiu-se muito nesta XII Califórnia da Canção. Aliás, não podia ser diferente: organizado em torno de um festival de música, o evento encerra concorrência, competição, enfrentamento. O público da Califórnia já está acostumado a isso e desde o primeiro dia de apresentação tem teorias sobre quem vai ganhar, por que, e quem foi “barbaramente prejudicado”. Este ano, com o anúncio das classificadas para a gravação do disco atrasado para o sábado, a grita dos eliminados começou mais tarde mas, de qualquer forma, foi sentida.

Gritaram os saudosistas. Campesina, vencedora na linha de Projeção Folclórica, inclui uma bateria no arranjo, o que é crime imperdoável de lesa-tradição. E mais: de seis músicas inspiradas na nostalgia (falamos da nostalgia, com tonicidade no tal, um sentimento fortemente castelhano), classificou-se apenas Faz de conta. Sina Gaudéria, Conselhos (que conta a inacreditável história de um peão que juntou uns cobres e vai mandar o filho estudar fora), Reculutando lembranças, Reminiscências e Infância, Tempo de Guri sobraram.

Faz de conta foi defendida por Cesar Scouto, o Passarinho, premiado mais uma vez como melhor intérprete. Passarinho foi aplaudido de pé, apesar de não conseguir mais decorar as letras que canta. Há quem veja em sua figura o símbolo do peão negro, que se desgasta fisicamente na tarefa de preservar o patrimônio do estancieiro. Ninguém nega que Passarinho é quem melhor defende o patrimônio poético do excelente letrista Colmar Duarte.

Gritaram também os inovadores. Continue lendo Um bochincho cultural muito criativo: a XII Califórnia (1982)